Mendigar de terra em terra
Mendigar de terra em terra
Em Portugal, os ciganos romenos dividem-se entre o trabalho sazonal e a mendicidade
Os ciganos romenos já há dez anos que começaram a chegar a Portugal. Com a expulsão colectiva ordenada pelo Governo francês e para escapar de uma miséria maior, Portugal passou a ser um dos seus destinos de sobrevivência económica. Desconhece-se quantos estarão em Portugal e são escassos os dados sobre a essência deste povo.
Nas grandes cidades os ciganos romenos habitualmente vivem da mendicidade ou da venda de pensos rápidos e do almanaque Borda d’Água. Nos meios rurais, procuram a sazonalidade de tarefas agrícolas – ganham à jorna. A par de alguns pontos no Norte de Portugal, a região Oeste é um dos locais escolhidos. Há 4 anos, instalou-se na aldeia de Pó, no Bombarral, uma comunidade de mais de cem ciganos romenos. Como a Roménia ainda não integrava a UE foram expatriados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Com a entrada daquele país na UE, em 2007, chegou à região Oeste uma segunda vaga de ciganos romenos. Instalaram-se nas freguesias de Reguengo Grande e Moledo, na Lourinhã. As diferenças culturais motivaram a população local a apresentar queixa aos presidentes de Junta.
Mafalda Teixeira (MT), mediadora intercultural do Centro Local de Apoio ao Imigrante (CLAI) da Lourinhã afirma que “instalaram-se em aldeias pequeninas, até desertificadas, e o choque foi maior”. Mas nota que apesar do preconceito ainda evidente, agora já começa a haver abertura em relação a esta etnia. E também encontra na Lourinhã, sinais de tentativa de integração por parte dos ciganos – com as crianças a dar o impulso, frequentando já o sistema de ensino. MT sublinha ainda que “não existem políticas de integração em Portugal”. E a questão do alojamento é “problemática”. “Há comunidades enormes a morar em apenas uma casa. Isto tem a ver com o oportunismo dos arrendatários, que cobram à cabeça”. Noutros casos, os ciganos pernoitam em acampamentos ou em carrinhas.
Desde o início do ano, França já repatriou mais de 4000 ciganos para a Roménia. Pedro Bacelar de Vasconcelos (BV), constitucionalista, afirma que a expulsão dos ciganos da França “são medidas sem qualquer hipótese de eficácia, que aparecem ao arrepio dos princípios da UE”. As medidas de Sarkozy têm provocado a indignação na imprensa romena a ponto de o Jurnalul National acusar a Europa ocidental de enviar “os seus ciganos e deliquentes” para o “caixote do lixo da Europa”.Por outro lado, BV questiona-se sobre que medidas tem a Roménia adoptado para integrar os seus ciganos: “A UE desenvolve programas de combate à exclusão social. E se a França não assume responsabilidades a esse nível, também temos de pensar no que têm andado a fazer os responsáveis da Roménia”.
A resolução do problema social dos ciganos romenos não passa pelo regresso ao passado do qual quiseram fugir. Na Roménia, três em cada quatro cigano são pobres. “Dizem que valia mais pedir esmolas aqui do que morrer à fome na Roménia”, relata Sérgio Aires, sociólogo da Rede Europeia Anti-Pobreza e com o trabalho de coordenação do Grupo de Trabalho Interinstitucional sobre a Etnia Cigana (SINA).
Rosário Farmhouse, Alta Comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural, admite que a integração está longe de ser conseguida: “ Não tendo grandes ferramentas de sustentabilidade. E, fruto de anos de exclusão social, o medo do ‘outro’ faz com que se fechem. A mendicidade não é cultural, é estratégica. Foi a forma que encontraram para sobreviver”.
Mesmo com os ciganos portugueses não há qualquer ligação. António Pinto Nunes, Presidente da FECALP (federação Calhim Portuguesa) declara que “existem apenas contactos mínimos porque eles não nos procuram para pedir qualquer tipo de ajuda”. Sérgio Aires reforça ainda que os ciganos portugueses, apesar de não se identificarem com os romenos, acabam por se solidarizar com eles: “Criticam a forma de vida, mas percebem que, por detrás, estão décadas de exclusão”.