Ajudar a mudar a sina da exclusão


Solidariedade (Nov)
Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos, Secretariado de Lisboa
Ajudar a mudar a sina da exclusão
Na rubrica ‘IPSS em notícia’, o jornal Solidariedade, órgão da CNIS (Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade), dedicou este mês duas páginas ao Secretariado Diocesano de Lisboa da Pastoral dos Ciganos (SDL), “a instituição mais antiga da diocese de Lisboa, que se dedica ao trabalho com a população cigana.” “Criado a partir da Obra Nacional para a Promoção e Pastoral dos Ciganos, fundada pela Conferência Episcopal Portuguesa em 1972 (primeira designação da ONPC) de onde tiveram origem “diversos Secretariados espalhados um pouco por todo o país, que localmente desenvolvem acções de intervenção junto da população cigana”, este Secretariado tem existência jurídica desde 1974, sendo a sua primeira e actual secretária diocesana Fernanda Reis.
O SDL “constituiu-se como IPSS em 1985”, “é membro fundador da Rede Europeia para a Promoção de Ciganos e Nómadas, com sede em Bruxelas e integra igualmente o Comité Católico Internacional para os Ciganos (CCIT).” O SDL trabalha actualmente em sete bairros sociais da Grande Lisboa e tem feito uma grande aposta “na educação e formação das crianças.”
Fernanda Reis (FR) explica que o trabalho do SDL “inseriu-se desde o início nos meios de maior carência, ou seja, antigos bairros de barracas que agora são de realojamento.” Inicialmente a actividade passou muito por incentivar as famílias ciganas a matricular os filhos na escola. “A aposta passou pela preparação da escolaridade das crianças e, através delas, intervir junto das famílias. Começámos com a abertura de centros de actividades de tempos livres, precisamente porque as crianças não frequentavam a escola”, afirma Manuela Mendonça (MM), vice-presidente do SDL.
“A acção foi sendo alargada a outras estruturas escolares e o Secretariado avançou para a constituição de pré-primárias”, mas apesar de se ter melhorado a presença na escola, “o grau de absentismo continua a ser muito elevado”. “O período de escola é muito difícil porque faltam muito e há muito insucesso. “A partir do sétimo/oitavo ano a maioria abandona os estudos.” “Numa tentativa de dar formação a esses jovens, a instituição avançou com programas de formação profissional, associados a uma vertente de alfabetização, para grupos a partir dos 16 anos e financiados pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional.” FR afirma ter sido “uma experiência muito interessante porque, apesar de não sermos ciganos, o nosso trabalho diário no terreno fez com que as famílias depositassem grande confiança em nós e deixassem os filhos frequentar os nossos cursos, mesmo as raparigas”. O resultado final foi bom e FR só lamenta que os programas se tenham extinguido. Outro dos projectos desenvolvidos foi o do emprego apoiado que pressupõe a formação em contexto de trabalho supervisionada por tutores. Perante as aptidões de cada um e com um breve formação sobre os princípios básicos a ter em conta num local de trabalho, eram encaminhados para empresas parceiras, explica MM.
O Secretariado tem em curso um conjunto de actividades em bairros onde existem muitos ciganos, tais como um serviço de “informação, dinamização e apoio comunitário, privilegiando a ligação às entidades locais responsáveis, particularmente nos campos da saúde e da escola” e tem editadas várias obras entre as quais se destaca um estudo exaustivo sobre a comunidade cigana da Diocese de Lisboa.
O trabalho é continuado e as salas de trabalho servem para a meia centena de funcionários auxiliar na resolução dos mais diversos problemas, tais como ler uma carta ou saber onde se dirigir para emitir um documento. A ideia é sempre desmistificar preconceitos de ambas as partes para uma melhor integração. FR diz julgar que “continuam a existir muitos estereótipos sem qualquer conhecimento em relação à população cigana”. A criação da carreira profissional de mediador, em Assembleia da República, “pareceu ser “um passo em frente para ajudar a integrar a comunidade, mas a lei nunca foi regulamentada. Apesar de se terem feito diversos cursos de formação, ficaram dezenas de mediadores ciganos no desemprego. Um mediador ajuda a fazer a ponte entre a comunidade e a instituição, seja uma escola, um hospital ou outra. “A entrada de uma criança na escola, diz FR, é muito complicada porque ela sai do ‘seu mundo’ e entra num “mundo não cigano” – por isso, a presença de um elemento da mesma etnia seria muito útil.
MM fala ainda das dificuldades financeiras que vivem, afirmando que sem a ajuda do Banco Alimentar Contra a Fome não sobreviveriam. Diz que fornecem as refeições às crianças e mesmo quando os pais não pagam, continuam a recebê-las “porque a alternativa é a rua”.