Tabu do SOL (12 out) – DIVERSOS

Dar a volta à sina

Criada por ciganas do concelho de Sintra, a etiqueta Roma Trend revela, mais do que uma coleção de moda, uma arma no combate à exclusão social. Para travar com a ajuda de Cig, o primeiro herói ciganos dos desenhos animados portugueses

 

No átrio da Igreja Paroquial de Mira Sintra realizou-se, no dia 6 de outubro, um desfile de moda, onde num dos momentos desfilaram roupas confecionadas em Portugal por um grupo de mulheres ciganas residentes na freguesia, são elas: Céu de 28 anos, Diana de 24, Tânia de 23 e Marilene de 20. Todas mulheres casadas, elaboraram as roupas com a assinatura criada para fazer a diferença: a Roma Trend. Esta iniciativa resulta do projeto da UE “I am Roma: Changing mindsets” (“Eu sou Cigano: para mudar mentalidades”) e segue-se a meses de formação, moldados à medida da desconstrução de velhos preconceitos. “Por um lado temos o estereótipo da mulher cigana de luto, que veste integralmente preto. Por outro lado temos o estereótipo das gerações mais jovens que vestem cores muito alegres”.

Paula Simões, vereadora da Câmara Municipal de Sintra, entidade que, através de uma rede de parcerias, agarrou o desafiou europeu de mudar mentalidades, diz ter-se pretendido não apenas “que a restante população possa encarar a comunidade cigana com outros olhos, mas também favorecer a auto-valorização dos próprios ciganos”.

A designer e formadora do grupo, Rita Afonso, diz que “apesar de os traços da etnia cigana surgirem diluídos nas criações do quarteto, as roupas são mais ou menos o nosso estilo, só que com poucos enfeites para adaptar ao gosto do resto das pessoas”; e acrescenta que na reunião com as comerciantes envolvidas no desfile, estas estavam no gozo sobre aquilo que as ciganas tinham produzido, mas depois gostaram. Jorge Miranda, parceiro do ‘I am Roma’ através da empresa Etno Ideia diz: “É isto. Reparem no efeito em termos de conotação racial. As meninas da freguesia são cuidadosamente preparadas para vestir roupa feita pelas ciganas. Este é o clique que se pretende” e acrescenta: “em comunicação funciona tudo contra a etnia. Há que encontrar os pontos fortes da comunidade e valorizá-los”.

Nelson e Samuel tiveram a seu cargo a banda sonora na noite do desfile: “acham que os ciganos só sabem fazer confusão, bater nos outros e roubar”, enumeram a duas vozes os músicos da ocasião e personagens-chave das Aventuras do Cig”. Tozé Salomão, guineense, ensaiou Nelson e Samuel e os três desmentem a ideia de rivalidade entre africanos e ciganos. “O Tozé aprendeu connosco e nós aprendemos com ele”, afirmam. Nelson declara mesmo que os seus melhores amigos são cabo-verdianos.

Jorge Miranda, criador do conceito do herói animado, falando sobre o herói animado Cig, refere que uma das conclusões é que esta figura tinha que ser bonita como “forma de contrariar a imagem de mau aspeto que a comunidade diz que os outros têm a seu respeito”. Helena Torres, coordenadora do Gabinete de Apoio às Comunidades Ciganas do Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI) afirma que “o desafio principal é fazer com que as comunidades maioritárias e as minorias se conheçam”. E refere que são os mediadores municipais ciganos “que fazem a ponte entre a comunidade e as instituições”. “A ideia de que a educação dá ferramentas para o resto da vida ainda não está generalizada”; lamenta João Montes, mediador (em Sintra NR) e refere a dificuldade tradicional de as meninas de 14 e 15 anos continuarem a estudar; afirma que “o meu trabalho também é esse: mostrar as vantagens da formação”. Rui Pinto, presidente da freguesia de Mira-Sintra, afirma que a situação está a mudar: “temos duas ciganas a trabalhar na creche do centro de dia, e na própria junta há um colaborador cigano”. Agora põe-se a questão de comercializar as criações da Roma Trend. Mas, refere a vereadora “quem acreditava que conseguiríamos fazer tudo isto?”