TESTEMUNHO DE UM JOVEM CIGANO ROMENO SOBRE O SEU PERCURSO DE VIDA
A revista Nevi Yag (Fogo Novo em Romani) do CCIT (Comité Católico Internacional para os Ciganos) de dezembro de 2016 foi dedicada aos jovens ciganos. A Caravana nº 83 publicou um artigo de Fernanda Reis e Manuela Mendonça, respetivamente Presidente e Vice-Presidente do Secretariado Diocesano de Lisboa da Pastoral dos Ciganos (SDL), que saiu na referida edição da Nevi Yag, sobre “Adolescentes e jovens ciganos face à sociedade em Portugal”. A mesma edição publicou um testemunho do cigano romeno Laurentiu Bocsas, que, dado o seu grande interesse, reproduzimos agora na íntegra; intitula-se:
“Roménia: ‘Romano Drom’ O meu percurso Cigano”
Chamo-me Laurentiu Bocsas e nasci, há precisamente 20 anos em Reghin, na Roménia. Vivo no bairro cigano de Apalinja. Este bairro situa-se no exterior da cidade e reúne entre 2 e 3000 Ciganos. Eu próprio sou cigano e orgulho-me de o ser. para além do romani, os nossos Ciganos falam húngaro e, é claro, romeno. Mas em casa, tal como no bairro, a língua mais falada é o romani. Quando eu tinha dois meses, o meu pau deixou-nos à minha mãe e a mim. Foram a minha mãe e a minha avó que me criaram sozinhas. Isso nem sempre foi fácil, mas elas fizeram sempre tudo para que não me faltasse nada. Nós moramos numa casa pequena com três divisões, a minha mãe, a minha avó e o irmão da minha mãe que é deficiente. Do lado da minha mãe, tenho três tias, um tio e onze primos. O meu pai que vive com outra mulher, teve dela um filho, meu meio irmão, que eu visito habitualmente. Ele tem quatro anos. O meu pai nunca se interessou muito por mim e penso que ele não me ama. Crescer sem o seu papá, é muito duro para uma criança. Mas, é assim mesmo. Durante oito anos frequentei a escola do bairro onde a maioria dos alunos eram ciganos como eu. A seguir, continuei os meus estudos no liceu de Reghin, durante quatro anos. Recebi o meu diploma escolar em 2015. Em setembro inscrevi-me como aluno do seminário greco-católico de Oradea. Mas depois de alguns dias que lá estive, voltei a casa. Já não era possível inscrever-me noutra escola e, por isso, fui trabalhar nas obras das estradas: é o nosso trabalho tradicional dos Ciganos. Este trabalho é muito penoso e mal remunerado (+/- 10 euros por dia). Além do mais, tudo se faz ilegalmente: não existe segurança social nem reforma. Somos obrigados a aceitar estas condições, porque é preciso comer! Seguindo os concelhos do P. Lupea, o pároco da minha paróquia, acabo de me inscrever em ciências sociais na universidade de Cluj. Espero assim, no futuro, poder ajudar melhor os Ciganos e mostrar aos Gadgé (não ciganos) que, também nós, se tivermos uma oportunidade, podemos frequentar estudos avançados e chegar assim a construir um lugar na sociedade. Desde muito criança e até aos 14 anos, tive uma vida muito dura. Por causa disso, sempre refleti sobre o sentido da vida e sobre o que a bondade e o que é o mal. Sofri com o olhar e as reflexões dos Ciganos mais ricos que nós, que nos desprezavam e não hesitavam em tratar-nos como “core” (pobres). Mas também havia quem nos ajudasse. Ciganos e Gadgé. Compravam-me livros escolares que a minha mãe não me podia comprar. Desses eu não me posso esquecer. Na escola primária eu tinha muitos problemas com alguns outros Ciganos. No inverno eles roubavam-me as luvas, o meu gorro. Eu era de compleição frágil e não conseguia defender-me. No liceu, eu era o único Cigano na minha aula; no princípio tive algumas dificuldades com um ou outro, mas rapidamente tudo se resolveu. Inscrevi-me num clube de karaté para poder defender-me e também para controlar a minha violência. Quando alguém me desrespeitava, pelos meus resultados escolares eu tentava mostrar-lhe que nós também podíamos triunfar e eu tentava sempre ter melhores resultados do que os meus detratores. Finalmente, estava bem integrado na minha aula e todos os meus amigos gadgé, quando terminei o liceu, ficaram tristes por me deixarem e mantemos bons contactos graças ao Facebook e ao desporto que pratico. Muitas vezes convidam-me a ir com eles à discoteca, mas eu não vou, pois isso não me agrada e não temos dinheiro para gastar nessas coisas; além do mais, nesses locais há a droga, o álcool… Isso não é para mim. Com 14 anos a minha professora de romeno, música e religião era uma senhora que gostava muito de mim. Ela verificou que eu não era batizado e propôs-me ser a minha madrinha. O= batismo foi celebrado na igreja greco-católica do P. Lupea que me propôs ser acólito; eu aceitei de imediato. Comecei então a ler a Bíblia e a interessar-me pela vida religiosa. Uma frase do Evangelho tocou-me em especial: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças e amarás os outros como a ti mesmo”. É isto que tento fazer todos os dias e assim penso andar no caminho de Deus. Depois de quatro anos como menino do coro, o P. Lupea propôs-me a responsabilidade de cantor do coro. Isso agradou-me muito e portanto participo assiduamente na liturgia. O meu professor pediu-me para acompanhar a escolarização de crianças do bairro cigano durante o mês de agosto. Organizaram-se cursos de recuperação na língua romena e também na escrita, nas matemáticas, etc. O P. Lupea pediu-me para realizar o mesmo trabalho na paróquia e é assim que me ocupo com uma quinzena de crianças com dificuldades escolares. O grande problema é a falta de material escolar (lápis, papel, etc.). Os Ciganos do bairro pediram-me para ajudar um pouco mais mas suas crianças em diversos ramos; que5riam pagar-me mas eu disse: “somos Ciganos, não peço nada”. Um curso particular custa +/- 25 lei (cerca de € 7) por hora. Eis o meu percurso. Tive a sorte de encontrar pessoas que me ajudaram e que tiveram confiança em mim. Queria dedicar a minha vida a ajudar os Ciganos a encontrar o seu verdadeiro lugar na sociedade e a ser reconhecidos e aceites nela… Há muito trabalho! Ainda uma coisa: tive a oportunidade de participar em dois encontros do CCIT, na Roménia e na Hungria. Isto deu-me uma coragem nova e uma força nova para me investir no trabalho com os Ciganos, para os empurrar para cima. Aí eu tomei consciência da vida dos Ciganos noutros países. Nesses encontros senti-me bem, tanto com os Gadgé como com os Ciganos, pois havia aí um só pensamento, uma só e verdadeira comunidade. Espero continuar a participar nesses encontros.