“TRADIÇÃO E MUDANÇA NA VIDA DOS CIGANOS”

Este é o título de um artigo de dezembro de 2011, publicado no nº 97 da revista O Tchatchipen, citada no presente nº da Caravana. Os autores são Carmen Garriga e Salvador Carrasco. Juan de Dios Ramírez-Heredia faz uma introdução em que lamenta, sentidamente, o recente falecimento de Carmen Garriga, uma grande figura da investigação cigana, professora da Universidade Autónoma de Barcelona e integrou o Conselho Académico do Instituto de Cultura Gitana; entre outras funções, tinha sido assessora de política social para a população cigana da Generalitat de Catalunya. Salvador Carrasco é catedrático na Universidade de Barcelona e Membro do Conselho Académico do Instituto de Cultura Gitana.  Salientamos alguns aspetos do artigo que consideramos mais relevantes.

 

“A cultura cigana é identificável, mas versátil, tendo uma notável capacidade de adaptação ao ambiente em que se insere … . São uma minoria, com uma identidade étnica partilhada e difusa”. Gunter Grass dizia que os ciganos “vivem em todos os países da Europa, não olham a fronteiras, não querem um Estado e contribuíram muito para a nossa cultura. Os ciganos são os verdadeiros europeus! temos muito que aprender com os ciganos: são a alma da Europa!”

 

“Os ciganos têm uma cultura posta à prova pela perseguição e pela marginalidade”. A “memória” cigana “oculta e revela simultaneamente a ausência e a presença da dor vivida; é, ao mesmo tempo, uma memória íntima e coletiva”. Um cigano disse: “nós olhamos o tempo como presente”.

“Oh ciudad de los gitanos!                                                                                           Quien te vio y no te recuerda!

Que te busquen en mi frente.                                                                                 Juego de luna y arena”.                                                                              Federico Garcia Lorca, Romance de la Guardia Civil, Romancero gitano

Nas últimas décadas produziram-se enormes mudanças na vida da população cigana: “embora se tenham realizado em todos os âmbitos da sua existência, verificaram-se, como sempre, sem perda da identidade coletiva”. Imersos “num amplo, lento e inexorável processo de mudança para novas formas de vida”, os ciganos “estão conscientes que mudaram muito e que há elementos ou traços culturais tradicionais que se perdem: um motivo sério de preocupação para muitos dos tios*. Mas sabem e dizem-no abertamente que é necessária lucidez na adoção de novas estratégias que lhes permitam adaptar-se às novas situações, numa sociedade maioritária em tão grande mudança, sem por isso deixarem de ser o que querem ser”.

“Uma das convicções mais arraigadas e claras que temos é a de que são eles, os próprios ciganos, quem há de decidir o que querem, para onde vão e como fazê-lo. A nós (não ciganos) só nos resta desejar aos ciganos, numa expressã bem sua, um futuro com saúde, sorte e liberdade”.

* “Pessoas mais velhas de respeito na comunidade”.