Público (2 fev)
Turma de ciganos ainda é polémica e não vai continuar (capa)
Há pais em Tomar que continuam a falar de “racismo”. Para o provedor de Justiça, não houve discriminação. Mas projeto não é para continuar.
Turma de ciganos continua a dividir opiniões. Mas projeto é para acabar
Foi em Tomar: em Setembro, estalou a polémica e houve acusações de segregação. Agora, ainda há pais que continuam a falar de “racismo”. O Alto Comissariado para as Migrações diz que não há absentismo, mas ainda reconhece a turma “especial” como “boa prática”. Escola diz que se superaram expectativas (ver CARAVANA nºs 74 e 75)
Etelvina é a cigana que vai quase sempre buscar o grupo de crianças ciganas à escola e as leva para o acampamento onde vivem. Orquídea Rosa, de 12 anos, entrevistada pelo PÚBLICO, diz que não gosta desta turma “só de ciganos” – quer dizer, agora já não é só de ciganos, porque há tempos deu entrada um rapaz que não é cigano. Orquídea está no 1º ciclo, quando já deveria estar no 2º. “Preferia estar num grupo com mais “senhores”, diz – “senhores” é o nome que muitos ciganos dão aos não-ciganos.”
Amélia, também com 12 anos, diz que “tudo junto, todos ciganos, é uma confusão”. Conta que agora tem mais dificuldade em acompanhar a aula do que dantes. Etelvina resume que “todos juntos não prestam atenção a nada.”
José Mendes, pai de Orlanda, de oito anos, que também frequenta aquela turma, declara: “A professora é boa. Mas juntar uma turma só de ciganos não faz sentido. Vocês não sabem o que acontece quando se juntam só ciganos? Nada de bom.” Não estão a aprender nada. Já pensou tirar as filhas desta escola. “Vê nesta turma que junta crianças de diferentes idades e de diferentes anos de escolaridade um ato de ‘racismo’”.
O Alto Comissariado para as Migrações (ACM) refere que “não se registam situações de absentismo escolar neste momento”. E acrescenta ao PÚBLICO, que “os alunos que inicialmente integravam a referida turma têm vindo a ser, gradualmente, integrados noutras turmas da mesma escola; a referida turma não será mantida, prevendo-se que no início do próximo ano letivo não exista”.
Por um lado, o ACM não reconhece a constituição de turmas só de alunos ciganos como “uma boa prática”. Por outro lado, o ACM explica que “as crianças abrangidas têm registado bons resultados, e têm melhorado o seu comportamento em contexto de sala de aula”. Mais: “está a ser feita uma aposta na abertura da escola aos encarregados de educação por forma a permitir um trabalho mais sistemático e estruturado”.
O PÚBLICO fez várias diligências para fazer um balanço da experiência, mas não obteve resposta da escola. No acampamento (de barracas de madeira, zinco e plástico), Fernando Silva, pai de uma das crianças da turma especial, afirma que “a minha filha está pior.” E José Mendes questiona: “isto é que é integração?”
Bruna Silva (BS), cigana de 23 anos, que trabalha na escola como auxiliar, refere que conhece muito bem a escola e concorda “que se tenha constituído essa turma. E as crianças estão a melhorar, sim. A Orquídea não lia e já lê… Depois, a professora dedica-se bastante. … A professora é boa e com esta turma os miúdos têm mais carinho”. BS que em criança também frequentou uma turma só com ciganos, numa escola em Coimbra, diz que não vê mal nenhum nisso e acrescenta: “os ciganos acham sempre que estão a ser rejeitados. Estão sempre de pé atrás. Mas estas crianças… muitas não sabiam ler ainda. Era justo ter crianças que não sabiam ler com outras que sabiam? Agora, a professora pode dar as matérias que estão para trás, percebe?” E BS remata: “juntar as crianças numa turma não teve nada a ver com a etnia, teve a ver com as dificuldades que elas tinham”.
O provedor de Justiça concluiu que, segundo o ME e o Agrupamento de Tomar, “o critério para a constituição da turma não foi o de origem étnica, mas as situações de retenção” e que as aulas da turma estão a decorrer normalmente e de modo bastante satisfatório, com elevada assiduidade e confirmando as expectativas de sucesso referidas.”
O provedor diz, contudo, ter detetado “défice de comunicação com as famílias” e chama a atenção do agrupamento “para que, em casos similares, sejam promovidos atempadamente encontros com os pais e encarregados de educação”. O diretor do agrupamento declarou ao PÚBLICO que “as coisas estão a decorrer até acima das expectativas”, mas que só no 3º período será possível fazer um balanço da situação.
Radiografia de um agrupamento
A Escola Básica do 1º ciclo dos Templários integra, com outros 27 estabelecimentos de ensino, o Agrupamento de Escolas dos Templários, em Tomar, que tem 3000 alunos. Em terço são beneficiários de Ação Social Escolar. No Projeto Educativo 2014-2017 estabelecem-se os objectivos de reduzir em 5% a taxa de absentismo e melhorar a taxa de sucesso escolar que no 2º ano de escolaridade é apenas de 86%.