Público (20 jan)
Estudo inédito: ciganos são mais saudáveis mas ainda pouco escolarizados (capa)
Um retrato “agridoce” das comunidades ciganas em Portugal
O estudo é apresentado hoje de manhã na cerimónia que servirá para lançar o Observatório das Comunidades Ciganas e Fundo de Apoio à Estratégia Nacional
Em 20 de jan. foi apresentado um estudo realizado pelo Centro de Estudos para as Migrações e Relações Interculturais da Universidade Aberta, em parceria com o Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. Na ocasião, foi também lançado o Observatório das Comunidades Ciganas e o Fundo de Apoio à Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENIC).
Segundo o estudo: “As atitudes face à igualdade de género podem estar a mudar no seio das comunidades ciganas em Portugal: menos de metade acham que ‘mulheres de vergonha’ não devem frequentar determinados sítios sem os maridos, um terço entende que uma viúva deve rapar o cabelo e cobrir-se de preto e um quinto que as mulheres não devem discutir assuntos familiares com os maridos.”
Pedro Calado (PC), alto-comissário para as Migrações refere que “não são os dados com que sonhamos, são a realidade, e a realidade é dura, mas mostra que foram dados passos importantes no sentido da integração”.
Este estudo fazia parte de uma das medidas previstas pela ENIC, aprovada em março de 2013; constatou que “não há uma comunidade homogénea, há diferentes níveis de integração.
O documento dá a conhecer uma comunidade que tem uma população jovem, pouco escolarizada, que tende a casar-se cedo (entre os 13 e os 15 anos). A gravidez adolescente já não é tão frequente e as mulheres têm agora o primeiro filho, em média, aos 19 anos.
“As questões de género sobressaem em toda a investigação que se baseia, entre outros métodos, num questionário de carácter presencial, a 1599 representantes de agregado familiar. Verifica-se que quase metade dos ciganos portugueses concorda com a ideia de que as mulheres devem ter os mesmos direitos e tratamentos do que os homens, mas igual proporção diz que os rapazes devem andar até mais tarde na escola, e um terço que os meninos são mais importantes do que as meninas.
Os autores – Manuela Mendes, Olga Magano e Pedro Candeias – admitem que existe “contradição e mitigação nas posições e atitudes perante a igualdade de género, por um lado, e as tradições por outro”, “mas parece-lhes possível que as atividades estejam a mudar”. Nas mulheres predomina o analfabetismo e mais de metade não completou o primeiro ciclo do ensino básico. Todavia existe maior frequência de creches e jardins-de-infância, menos absentismo e abandono, maior interesse pela escola, maior participação das mulheres em cursos de alfabetização e de reconhecimento das competências, apesar das resistências dos maridos.
PC enfatiza o “salto grande” que se deu em relação às gerações mais velhas, “até por imposição do RSI de que mais de metade das pessoas depende para viver”. Neste sentido, PC menciona ainda a influência do Programa Escolhas e do programa TEIP (Território Educativo de intervenção Prioritária) e do PIEF (Plano Integrado de Educação e Formação). Segundo PC, a escolaridade é o primeiro passo para resolver outro problema – a falta de acesso ao mercado de trabalho (só 15% dependem do seu trabalho para viver). Mais de metade nunca trabalhou (até porque 48% têm menos de 18 anos) e é como vendedor ambulante que trabalha a maior parte dos outros.
Na área da saúde, 92% dos inquiridos “indicam que todos os membros do agregado familiar têm médico de família” e “71,3% dos casos de indivíduos com filhos com menos de 18 anos têm vacinas em dia”.
Em relação à habitação a maioria vive em moradias ou apartamentos de arrendamento social.
Na cerimónia, Carlos Jorge Sousa foi ainda apresentado como director do Observatório das Comunidades Ciganas.
O Fundo de Apoio à Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, em 2015, será de 50 mil euros para projetos de integração das comunidades ciganas; as respectivas candidaturas abrem em 30 de janeiro.