El País (26 abr)

Uma enorme minoria sem poder

Pressionadas pela pujante extrema direita húngara, os ciganos apenas têm os direitos garantidos e a sua representação na política reduz-se à do testemunho

 

Uma menina cigana, em Budapeste, conta como cinco homens lhe gritaram: “volta para a Índia, cigana”. Crê que são pessoas do partido Jobbik, da extrema direita húngara, que é a terceira força política na Hungria. Alexandra tem 20 anos e não terminou a escolaridade, está desempregada há dois anos; na adolescência viveu numa instituição de acolhimento; há sete anos deu a sua filha para adopção. Agora, estuda à noite e afirma que gostaria de “continuar a estudar, ser normal e trabalhar”.

 

Os ciganos são a principal minoria na Hungria, cerca de 8% da população, que são 10 milhões de habitantes. Apesar disso, o partido étnico, o Partido Cigano Húngaro (PCH), só teve 18.000 votos. Como no resto da Europa são os que mais sofrem de discriminação, racismo e pobreza.

Ágnes Osztolykán (AO) era a única deputada cigana da oposição; no partido do Governo somente havia “três deputados ciganos”: ao todo quatro em 386 deputados. AO, do Partido Verde LMP, constata que “a voz dos ciganos na Hungria é irrelevante”.

Alexandra, adepta do PCH, considera que os partidos da direita e da esquerda “só nos utilizam antes das eleições”; frequenta a universidade, mas reconhece que são poucos os ciganos com um nível educativo alto e por isso não se podem organizar. Para ela, a solução não é um partido étnico. “Temos que fazer entender às pessoas que a integração dos ciganos é um problema de todo o país, não só de uma minoria”.

Aladár Horváth (AH) é um conhecido ativista contra a discriminação e porta-voz do Partido Cigano. AH afirma que um partido étnico só se revelou necessário face ao facto de “os partidos serem presa dos seus votantes racistas”: por isso, tiveram que se organizar. “Os votantes ciganos são os mais vulneráveis à venda de votos em troca de dinheiro ou de comida, ou através da distribuição de subsídios ou de empregos públicos”, diz Zeljko Jovanovic(ZJ) da Fundação Open Society de Budapeste. Com a nova lei eleitoral há um representante cigano no Parlamento, mas sem direito a voto, e “um órgão de autogoverno local cigano que aconselha o Executivo”.

O Governo Húngaro promoveu em 2011 a estratégia europeia para integrar os ciganos, e, como José Manuel Fresno, assessor da Comissão Europeia, explica, “a Hungria é um país muito ativo quando se trata de propor medidas e de esboçar políticas, mas pouco efetivo na obtenção de resultados”.

Entre 2007 e 2013, Budapeste investiu apenas 8,8% dos fundos da UE para a integração sobretudo dos ciganos. Acaba de ser publicada pela Comissão Europeia, uma informação que louva a Hungria por ter tornado obrigatória a educação pré-escolar, mas sugere que faça algo contra o discurso de ódio.

Entre 2014 e 2020 os países têm que destinar 20% dos fundos da UE para lutar contra a exclusão. “Os governos nacionais deveriam apoiar programas educativos e de emprego adaptados à procura do mercado”.

Os esforços de Bruxelas para integrar os seis milhões de ciganos da UE têm-se intensificado nos últimos anos, mas têm sido pouco eficazes. Alexandra aguarda que a burocracia lhe possibilite ter uma casa social. No campo, a situação dos ciganos ainda é pior: muitos não têm saneamento nem luz. À pobreza acrescentam-se campanhas de intimidação que grupos de civis com uniformes, lançam regularmente, invadindo as aldeias para aterrorizar os ciganos. Pertencem a uma organização proibida, a Guarda Húngara que está ligada à extrema direita de Jobbik. Perante isto, os partidos moderados de esquerda e de direita calam-se. Assim, “o ódio é tolerado e os ciganos temem que se se comprometem na política, só porão em risco a sua já vulnerável posição”, diz ZJ. No entanto, continua, “a minoria está cada vez mais consciente do poder de que necessita e que poderia ter”.

Discriminados

A segregação afeta 45%das crianças ciganas que frequentam as escolas, segundo informações de 2012 da Agência Europeia para os Direitos Fundamentais (FRA).

80% dos ciganos na Hungria, reside em casas em risco de pobreza, o que é o dobro do resto da população.

45% dos ciganos vivem casas onde não há, pelo menos, cozinha, sanita, duche ou luz.