Olga, a batalhadora


Visão (22 Jul)
Olga, a batalhadora
Um dia elegeram-na rainha; no outro, tornou-se na primeira da sua etnia a tirar a carta de condução. Eis Olga Mariano – quando se cumprem dez anos da sua AMUCIP
“Alguém que procura soluções em vez de só apontar problemas” dizem Luís Pascoal e Maria Helena Torres, do Gabinete de Apoio à Comunidade Cigana, no Alto Comissariado para a Integração e Diálogo Intercultural. “Alguém que fez o seu caminho a pulso e com muita inteligência”, comenta Francisco Monteiro, Director Executivo da ONPC. “Alguém que transmite muita segurança e serenidade”, acrescenta Mirna Montenegro, coordenadora nacional do Projecto Nómada, uma referência na intervenção educativa junto do povo cigano. “Uma batalhadora”, designação comum a todos.
Olga Mariano, de 60 anos, viúva, quis incentivar a frequência escolar das crianças, “sobretudo das raparigas”. Refere que “foi o acaso” quando em 1999 foi chamada para uma formação de um ano, [organizada pelo CEFEM, Centro Europeu para a Formação e Estudo sobre Migrações, fundado com o apoio dos Missionários Scalabrinianos – NR] que considera ter sido um dos melhores anos da sua vida. As parceiras de estudo eram uma mão cheia de ciganas só com a quarta classe. A relação entre elas não passou despercebida tendo um dos formadores desafiado a reunirem-se juridicamente e assim fundaram a AMUCIP: pretendiam diminuir o absentismo escolar das suas crianças.
Olga Mariano cresceu no Fogueteiro e só foi à Escola aos 8 anos, acompanhada de uma das irmãs três anos mais velha, onde fez a quarta classe. Seguiu a vida normal de uma cigana tendo casado e vivido da venda ambulante até que enviuvou.
Refere que inicialmente o criar uma associação foi uma ideia mal recebida: “Os ciganos pensavam: o que querem estas mulheres? Passar-se para a banda de lá? E os não ciganos temiam que lhes quiséssemos roubar o posto de trabalho.” Terminado o curso de mediadora Olga frequentou três meses de estágio na Quinta da Princesa, Seixal, bairro demasiadas vezes noticiado pelas piores razões (confrontos, troca de tiros entre moradores e polícia,…). Trabalhava dentro da sala de aula, a apoiar os professores a ensinar os meninos da sua etnia. “Dizia-lhes: ‘tu és igual, és capaz’. E eles sentiam-se bem porque havia alguém que os compreendia”. Depois Olga foi chamada para o Projecto ‘Príncipes do Nada’, no Bairro Padre Cruz, em Lisboa e orientado pelo investigador Rogério Roque Amaro. Começou a marcar presença em Congressos, a falar e a ouvir vivências diferentes. Consegue por pedido à autarquia, um espaço, uma vivenda estratégica no Bairro da Cucena, em Paio Pires, Seixal, onde vivem maioritariamente ciganos – uma conquista que lhe valeu também a rendição da sua comunidade. Trabalhavam na associação em regime pós-laboral em tertúlias. “Saúde, pão, habitação, emprego, formação” era o seu slogan. “Apareciam muitas mulheres e também homens, a dizer: nós queremos trabalhar, nós queremos formação”.
Há um ano iniciaram uma sensibilização dos técnicos da cadeia de Tires, visando apoiar 14 ciganas ali presas, “para saberem que podem ter ajuda quando saírem”.Com o apoio comunitário do programa Operacional do Potencial Humano, a AMUCIP decidiu também, incentivar o empreendedorismo no feminino e uma dezena de mulheres ciganas criaram o seu próprio negócio. “Agora queremos ajudar na formação de mais associações como a nossa”. Sublinha que “podemos ser tudo o que quisermos sem deixar de ser quem somos”. Já completou o 12º ano, ao abrigo das Novas Oportunidades, e, em fins de 2009, aceitou trabalhar como mediadora sociocultural [da Cãmara do Seixal – NR]. Em todo o país, 15 autarquias resolveram empregar ciganos. Nesse grupo, está actualmente uma única mulher: Olga Mariano.