Visão (23 abr) – CULTURA CIGANA

Olé! Ou a música da vida

A comunidade cigana de dois bairros de Matosinhos atua, pela primeira vez, na Casa da Música, que celebra dez anos em 2015. Romani quer esquecer preconceitos e lembrar memórias e raízes

Na sala de ensaio da Casa da Música (CdM), no Porto, 44 pessoas de etnia cigana de dois bairros de Matosinhos – 14 da Biquinha e 30 do Seixo, aguardam vez para subir ao palco de Romani. 23 alunos finalistas do 3º ano do curso de dança do Balleteatro, integram o espectáculo: reproduzem pregões a lembrar o ambiente das feiras. Faltam quatro ensaios para Romani chegar à sala Suggia e atuar no próximo dia 29. Isabel Barros, diretora artística refere que “o espetáculo ainda não está cosido”: “temos cenas soltas e vamos tentar uni-las. A Associação para o Desenvolvimento Integrado de Matosinhos (ADEIMA), financiou o projeto.

 

Em novembro, a CdM desafiou as comunidades a participarem no projeto Ao Alcance de Todos; “inicialmente reagiram com desconfiança”. Lurdes Queirós, vereadora de ação social de Matosinhos disse-lhes que “era uma oportunidade de mostrarem a sua cultura e tradições”.

 

Jorge Prendas, coordenador do serviço educativo da CdM, quer, sobretudo, que seja “uma grande festa cigana e de inclusão”.

O ensaio que estava previsto durar toda a tarde foi interrompido porque António Maria, o Tio Nabarro, patriarca de muitas das famílias dos dois bairros, estava ser operado no hospital e era preciso orar por ele. Foi o que bastou, para, aos poucos, o grupo se desfazer.

Entre a comunidade dos dois bairros há diferenças. A do Seixo veste-se de cores fortes, camisas vincadas, sapatos de cunha e salto alto, enfeita-se com pulseiras e colares brilhantes: são os “ciganos do Culto”. A Biquinha vai de chinelas, casaco de malha, camisola de algodão: são “os ciganos do mundo”. Os primeiros pertencem à Igreja Evangélica Filadélfia. Graciano Cardoso, 31 anos, com a sua mulher Tay, de 28, afirma que apenas cantará “para Deus”, tal como acontece nas quatros sessões semanais do Culto e nos encontros que juntam milhares de fiéis. Apesar do nervosismo, porque “enfrentar o público e as câmaras de televisão não vai ser fácil”, mas “vale a pena”. O casal quer romper preconceitos e mostrar que “o cigano tem a sua cultura própria, oposta àquilo que as pessoas pensam”. E dá um exemplo: “Não há casamento obrigatório. Só casa se gostar, se não gostar não casa. Nenhum pai casa uma filha com 12 anos! Isso é crime.”.

Quando Jorge Queijo, diretor musical, iniciou o projecto Romani, estava à espera que “trouxessem mais repertório cigano”, mas a globalização chega a todo o lado. “Esta comunidade é muito citadina, ouvem quizomba, rumba… Não sabem ler música, nem uma pauta, são músicos intuitivos.”

A coreógrafa Isabel Barros tem trabalhado para que o espetáculo mostre “a alma cigana”: “um projecto deste género tem dar maior relevo ao que vem de lá do que ao que vem de cá”. “A timidez que encontrou no início entre os ciganos tem-se esbatido”. No ensaio do último domingo “as diferenças entre os ‘ciganos do mundo’ e os ‘ciganos do culto’, já pouco se notavam”.

Romani terminará em festa: elas com vestidos compridos de cores fortes, eles de preto e branco. E com uma das músicas cantadas nos típicos casamentos ciganos, na voz de Conceição, “mãe de quatro filhos, destemida na vida mas tímida no palco, sai da sala dançando e sorrindo”.