CRÓNICA por Faíza Hayat – Questões ciganas
XIS – Público (28 Out)
CRÓNICA por Faíza Hayat
Questões ciganas
A autora (FH) refere que Lívia Járóka, da Hungria, foi a segunda mulher de etnia cigana a ser eleita para o Parlamento Europeu (PE), em Junho de 2004, depois do espanhol Juan de Díos Ramírez-Heredia (deputado de 1994 a 1999). Posteriormente outra mulher cigana foi eleita para o PE, Viktória Mohácsi.
Lívia é mestre em Sociologia pela Universidade Central Europeia (Varsóvia), bolseira da Open Society da Fundação Soros e doutoranda em Antropologia na University College London, estudando as políticas de identidade étnica dos ciganos na Hungria.
Filha de pai cigano e de mãe judia, Lívia Járóka cresceu numa cidade fronteiriça da Hungria com a Áustria, onde não havia mais nenhuma família cigana para além da dela.
Há poucas semanas, Lívia Járóka foi nomeada para um prestigiado prémio de Direitos Humanos da União Europeia. O observador da Bulgária no PE, Dimitar Stoianov, do partido húngaro “Ataque”, reagiu de imediato referindo que “no meu país há dezenas de milhares de raparigas ciganas bem mais bonitas do que esta honorável [mulher]….”
FH refere que “as declarações de Stoianov (firmemente condenadas pelo grupo parlamentar do Partido Popular Europeu, pelo presidente do PE e por numerosas organizações em Budapeste e em Bruxelas) constituem um ataque de uma margem política a uma margem social – na mesma linha de certos políticos em França ou Espanha ou Portugal(…).”Esta situação torna-se mais grave quando a margem política consegue ocupar a agenda, como aconteceu na Bulgária onde o Ministro da Saúde daquele país, Radoslav Gaydarski admitiu que o Governo tem em projecto uma lei para diminuir a taxa de natalidade entre as minorias, particularmente entre os “roma”. Hayat acrescenta que este Ministro “nada disse, entretanto, sobre o que tenciona fazer às raparigas já grávidas.” “O contexto político desta declaração é ainda mais fundo: o receio de que os “roma” se reproduzam de tal forma que, a médio prazo, serão maioritários entre as populações “mais” europeias.” Recordando que “a liberdade de reprodução é – legalmente – universal, com base no direito à vida, igualdade, privacidade e saúde”, FH constata que “os ciganos são a fronteira mais impermeável, e o teste mais duro, da tolerância da sociedade portuguesa. Ou da sua indisfarçável inexistência.”