Diocese de Aveiro vai reabrir o processo de canonização da Princesa “Santa” Joana

Santa Joana nos traços de António Rocha (cortesia de Manuel Bóia)

Santa Joana nos traços de António Rocha (cortesia de Manuel Bóia)

 

Processo de canonização permitirá olhar para um modelo que contraria “tempos de perda progressiva de valores morais” e conhecer melhor a vida e obra de Santa Joana.

 

A Diocese de Aveiro vai reabrir o processo de canonização de santa Joana, que, efetivamente, só foi beatificada, a 4 de abril de 1693. D. António Moiteiro fez o anúncio público da decisão na Missa em que se assinalaram os 50 anos do documento do Papa Paulo VI que confirmou santa Joana como padroeira da cidade e da Diocese de Aveiro, no dia 5 de janeiro.
“Ouvido o parecer do Provincial da Ordem Dominicana em Portugal, presente nesta celebração, e correspondendo aos anseios de várias instituições diocesanas e da sociedade civil, regozijo-me ao comunicar à diocese que iremos reabrir o Processo de canonização da Princesa “Santa” Joana”, afirmou o Bispo de Aveiro. E acrescentou dois objetivos fundamentais. Primeiro, “centrando-nos neste ano dedicado à vida consagrada, queremos olhar mais profundamente para esta religiosa que viveu grande parte da sua vida na nossa cidade e cujo túmulo se encontra entre nós. Em tempos de perda progressiva de valores morais, do enfraquecimento da fé em muitos dos batizados… Santa Joana é modelo eloquente de que só Deus basta (S. Teresa de Ávila) e por Ele vale a pena deixar pai, mãe, esposa, filhos, casa, campos e até a própria vida, para ser discípulo de Jesus (Lc 14, 26). Segundo, “só podemos amar aquilo que conhecemos. A intensificação do Processo canónico em ordem à sua canonização deve ser ocasião propícia para conhecermos melhor a vida e obra de Santa Joana: as razões que a levaram a ingressar no Mosteiro de Jesus, o amor à paixão de Cristo como expressão máxima do amor de Deus, o testemunho de uma vida simples e humilde, o amor aos mais pobres da cidade de Aveiro… intuitos que devem ser um desafio à nossa vida cristã. Deus, na e pela vida das suas criaturas, merece a nossa vida e os nossos trabalhos”.
D. António Moiteiro recordou que, depois da beatificação de 1693, foram feitas diversas tentativas, mas sem sucesso: “Não posso deixar de realçar o Processo organizado e enviado para Roma em 1753 e o voto formulado pelo Senhor D. Manuel de Almeida Trindade, na nota pastoral de 7 de abril de 1965, quando deu, à diocese, a notícia do patrocínio de Santa Joana sobre a cidade e a diocese de Aveiro: «Oxalá este facto venha a despertar ainda mais, não só na cidade mas ainda em toda a Diocese, a devoção a Santa Joana, e em breve possamos ver concluído o processo da sua canonização».
No final da celebração, que contou com a participação de diversos padres, autarcas e outras autoridades, além das irmandades de Aveiro, a assembleia rezou a oração para pedir graças à beata Joana (reproduzida nesta página). D. António Moiteiro realçou que se o processo chegar a bom porto Santa Joana receberá culto universal, em vez de o culto estar limitado à Diocese de Aveiro, a Portugal e à Ordem Dominicana, e informou ainda que em breve será revelado o endereço para comunicar graças recebidas bem como outros aspetos do relançamento do processo.
J.P.F.

 

 

Religiosa e monárquica é exemplo
para laicos e republicanos

 

“Se não fosse crente, teria o mesmo gosto em ter Santa Joana por padroeira da cidade de Aveiro por motivos mais racionais: os valores da solidariedade, da atenção à pobreza, do sentido profundo de dar sentido à vida”, disse o presidente da Câmara Municipal de Aveiro, na sessão que decorreu no Museu de Aveiro, na tarde de 4 de janeiro. Ribau Esteves provocou alguns sorrisos ao afirmar que “o Estado é laico e republicano”, enquanto “Santa Joana é religiosa e monárquica”, mas realçou a capacidade de Joana unir todos os aveirenses. Notou que “muita gente não sabe quase nada de Santa Joana” e mostrou vontade de fazer do 12 de maio (feriado municipal – morte de Santa Joana, em 1492), uma festa “que mobilize o povo”. “Compreendemos que esta santa não tem cavacas nem concertos populares, mas tem outros valores, outros patrimónios”, disse. Num à parte que certamente não terá agradado aos responsáveis do Museu de Aveiro, antigo mosteiro onde viveu Santa Joana, o presidente da Câmara disse que a instituição será “sempre museu nacional”, mas terá muito a ganhar com uma gestão municipal, porque “há valores nacionais muito mais importantes para a vida da nossa cidade”. É conhecida a vontade da Câmara gerir o espaço que está atualmente dependente da Direção Regional de Cultura do Centro, dependente da Secretaria de Estado da Cultura.
A sessão foi aberta por Nuno Gonçalo da Paula, que, falando pela Irmandade de Santa Joana, realçou que Joana, vivendo “numa época de profunda transformação do mundo e do país”, é hoje modelo para as gerações mais novas. Monsenhor João Gaspar deu uma visão panorâmica da história do culto de Santa Joana, que apagou o culto que a cidade tinha por Santa Ana (tida por mãe de Nossa Senhora, embora não seja figura bíblica). D. António Moiteiro, encerrando a sessão, realçou que “os santos são aqueles que à sua volta fazem outros santos”. A partir desta convicção, traçou o objetivo de todos conhecerem Santa Joana para crescerem espiritualmente e a meta de construir a cidade e a cidade com “Deus no centro”, porque, à maneira de Joana, nas palavras de Teresa de Ávila, “só Deus basta”.

 

Oração para intercessão 
de Santa Joana

Senhor, Pai santo e fonte de toda a santidade,
nós Vos louvamos e damos graças,
porque enriquecestes a vossa Igreja
com a vida da bem-aventurada Joana Princesa,
que testemunhou simplicidade, humildade,
devoção à paixão de Cristo e amor ao próximo.
Fazei que nós, vossos servos,
superando a sedução dos bens terrenos
e de coração purificado,
imitemos as suas virtudes
e alcancemos o reino dos Céus.
Por sua intercessão, concedei-nos as graças
que Vos pedimos
(nomeadamente a de…)
e o dom da sua canonização.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco
na unidade do Espírito Santo.
Ámen.