2ª carta aberta a J.L.

Educar… hoje Aveiro, 13 de Junho de 2007

Olá, J.L.!

Cá estou novamente a escrever-te, ano e meio depois de te ter enviado uma carta1, em que te dizia “sou teimosa e, como acredito nas pessoas, não desisto! Não desisto de ti, não desisto da turma.” E acrescentei: “Tu também tens de acreditar em ti e não podes desistir!”

E escrevo-te hoje, precisamente no dia em que temos a reunião de notas da tua turma. Quero dar-te em primeira-mão os “Parabéns”, pois completaste aquilo que se chama “escolaridade obrigatória”. Lembras-te de como começaste o ano? Bem, muito bem, mesmo. Mas… no final do primeiro período, tiveste algumas negativas e quase choraste à minha frente. Quem diria que tu, J.L, te sentirias triste por causa das notas!!! No ano passado, parecias pouco ou nada interessado! Agora, não! Tinhas objectivos. Quando conversámos, numa sexta-feira à tarde, emocionei-me, lembras-te? Ficaste admirado e atrapalhado com a minha comoção, disseste-me que tinhas mudado: acreditavas que eras capaz. Garantiste-me que sabias bem que caminhos percorrer e asseguraste-me que tu e os teus amigos conheciam os riscos de determinadas escolhas.

Hoje, estou contente, pois atingiste o teu objectivo para este ano. Mais: para ti, a escola pode ser “uma seca”, como debatemos nas aulas de Formação Cívica, mas tu queres continuar a estudar. E, apesar da tua aparente incapacidade de aceitar críticas e regras, apesar da tua atitude provocatória tantas vezes perturbadora do bom funcionamento de algumas aulas, optaste por continuar os estudos. Será o mais fácil, pois trabalhar seguindo as ordens de um patrão é bem mais complicado ;-).

Neste ano, mais uma vez, houve muitos acontecimentos que marcaram a tua vida escolar. Nem sempre foste capaz de lidar com os colegas e com os professores. Mostraste que não medes as consequências dos teus actos, pois afinal és tão impulsivo! Até na última semana de aulas houve problemas! E por que será? Há tantos factores que nos influenciam. O maior de todos quando somos pequeninos é a nossa família. E tu percebes bem o que estou a dizer, não é, J.L.? O segundo factor são os amigos (ou aqueles com quem nos damos e pensamos que são nossos amigos) e na adolescência esses (quase) substituem a família. Quanto à escola, ela desempenha um papel tão importante na nossa vida, não só pelos conteúdos que aí se aprendem, mas sobretudo pelas competências culturais e sociais que aí desenvolvemos.

Em relação ao futuro, J.L., só o facto de te preocupares com ele já é bom. Isso significa que descobriste que é importante pensar “mais longe”. Espero que as tuas escolhas sejam suficientemente fortes e razoavelmente prudentes, para que não te venhas a arrepender. Claro que quase nada é irremediável, mas é muito difícil dar a volta por cima, quando à nossa volta tudo nos puxa para determinados caminhos. Faz as tuas escolhas. Escolhe bem, para seres feliz.

Ah! Na última aula, disseste-me que me tinha visto livre de ti e tu de mim. E depois riste-te, como quem diz: “Estava a brincar!” J.L., muitas dores de cabeça me (nos – a mim e a professores, psicólogos, familiares e amigos) deste; porém não desistimos de ti. Mas… o que é certo é que tu não desististe!

Um beijinho e até sempre!

1 Publicada no Correio do Vouga de 4 de Janeiro de 2006