O dia mundial da televisão

Há treze anos, a ONU proclamou o dia 21 de Novembro como o Dia Mundial da Televisão.

Em 2003, o então Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan dizia que “vivemos cada vez mais numa mesma sociedade da informação, na era da aldeia global, na qual a televisão, o nosso meio de comunicação mais poderoso, é um elemento fundamental”.

O balanço da revolução televisiva pode ser considerado globalmente positivo. De facto, a televisão tem sido uma ferramenta de desenvolvimento. Hoje entra-nos pela casa dentro e faz-nos descobrir o mundo que nos rodeia e o que temos de comum ou diferente com os outros. Permite-nos alargar horizontes e compreender as diferenças.

A televisão revolucionou as comunicações, influenciando também profundamente a vida familiar: Hoje, a televisão é uma fonte primária de notícias, de informações e de distracção para inumeráveis famílias, a ponto de modelar as suas atitudes e as suas opiniões, os seus valores e os protótipos de comportamento.

Mas a televisão pode, também, prejudicar a vida social e familiar; difundindo descontroladamente valores (ou falta deles) e modelos de comportamento falseados ou degradantes, divulgando pornografia e imagens de violência brutal; dando tempo de antena à propagação e banalização do mal e do terrorismo, inculcando o relativismo e o facilitismo e a apologia da cultura do vazio e do nada; explorando até à náusea o “mercado da privacidade”; transmitindo publicidade exploratória ligada aos mais cretinos instintos; exaltando falsas visões da vida que impedem a autuação do respeito mútuo.

Em Portugal e com as guerras das audiências, é cada vez mais débil a ligação entre o sucesso de mercado e a ética na comunicação audio-visual. Com honrosas excepções, a televisão teima em espremer, até aos ossos da alma, os sentimentos das pessoas. Uma espécie de nacionalização emocional.

Para se compreender este uniformismo castrador, basta dar um ou dois exemplos: o espaço reservado às telenovelas é absolutamente injustificado e pateticamente perigoso. Há dias, resolvi fazer a “contabilidade horária” das novelas: entre as 14 horas e as 2 horas da madrugada, dois dos canais generalistas emitiram treze (!) telenovelas, correspondendo igualmente a treze (!) horas de emissão. Mais de 50% de antena!

Se a isto juntarmos os pastelões dos noticiários (que chegam a ter noventa minutos de duração), com alinhamentos anacrónicos, o futebol e seus bastidores divulgados até à náusea mesmo para quem gosta deste desporto (que é o meu caso), e uns concursos que, na maioria, são um atestado de estupidificação dos portugueses, o que resta? Quase nada!…

Por isso, torna-se cada vez mais imperativo que, no desempenho das suas próprias responsabilidades, a indústria da televisão desenvolva e observe um sólido e saudável código de ética. Os canais de televisão, geridos pela indústria da televisão pública ou privada, são um instrumento público ao serviço do bem comum; não são somente um terreno marcado por interesses comerciais ou um instrumento de poder económico ou político.

Por outro lado, há que potenciar, respeitar e valorizar o papel e a influência das associações de espectadores, como expressão adequada da sociedade civil.

Recordo uma das reflexões que li há anos sobre esta efeméride, e que, em tom caricatural, nos faz reflectir sobre a força que a sociedade ainda (pode) ter: “O dia mundial da televisão é uma excelente oportunidade para a manter desligada durante todo o dia!”

Infelizmente, as novelas, as guerras, o mal, a violência, o voyeurismo têm um mercado aparentemente cada vez mais poderoso. E, se assim é, a responsabilidade é da sociedade que consome sofregamente esta overdose televisiva. Ou seja, de todos nós.

E, ao mesmo tempo que a televisão se torna totalizante, o livro torna-se uma expressão de resistência à massificação alienante. Um combate muito desigual…Como dizia Jean Guitton, em jeito provocativo, o bom livro traduz a supremacia do espírito sobre a matéria, ao passo que a má televisão representa a vitória da matéria sobre o espírito.