Editorial Uma visão negativa do essencial cristão induz em erro e gera repulsa, em vez de provocar atracção pelo caminho da fé. Com frequência, enunciam-se os caminhos do Evangelho com um rol de proibições e interdições, como se nos encontrássemos perante um angustiante labirinto de sentidos proibidos, confrontando-nos insistentemente com sombras e becos sem saída, em vez de luz e de novos rumos.
Não raro, deparamo-nos ante consciências cujo exame não passa apenas do mal que não fizeram, de todo incapazes de aferir que bem deixaram de fazer. Como se o seguimento de Jesus Cristo fosse para “bonzinhos”, que não fazem mal nenhum, em vez de valentes, os quais, naturalmente sujeitos a cometer erros, todavia se esforçam, uma e outra vez, por fazer caminho, isto é, por viver o amor.
Nem sequer são os rituais exteriores, como mezinhas de purificação, que nos identificam como discípulos. O “jejum” que agrada a Deus e, portanto, nos confere a dignidade de seus seguidores é feito todo ele de acções, vigorosas e exigentes, que explicitam, junto do próximo e em seu favor, o nosso amor a Deus (cf. Is.58,6-7).
Aliás, esse será o teor do “julgamento” que o Senhor fará sobre o modo como vivemos o tempo que nos foi dado, sobre as formas, bem concretas, as que tratam da vida do corpo e da vida do espírito, pelas quais nos tornámos ou não sacramento do Seu carinho pelos nosso irmãos, com os mais “pequeninos” em lista de prioridades (cf. Mt.25,34-36).
O “Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera factos e muda a vida” (Bento XVI, Spe Salvi, n.º 2). Em verdade, o Senhor que, na noite da confidência, disse aos apóstolos “Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros.” (Jo.13,34), ou, de outro modo, “É isto que vos mando: que vos ameis uns aos outros.” (Jo.15,17), é o mesmo Senhor que se levanta da mesa, lhes lava os pés e conclui: “Compreendestes o que vos fiz?… também vós deveis lavar os pés uns aos outros … dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também.” (Cf.Jo.13,13-15).
Não pode ser mais clara a proposta de Jesus Cristo. O que se aprende é para mudar o coração e pôr em prática, num plano de progressiva construção do edifício da fraternidade humana pelo exercício inequívoco da Caridade, que não tem nada de negativo! É, isso sim, um caminho exigente, que implica opções, que se faz de sentimentos, de atitudes, de palavras, que brotam da intimidade com o Mestre, que reclamam uma vida modelada pelas virtudes, muito para além e, tantas vezes, distintas do alvitre de cada um.
