A verdade e os disfarces

Uma pedrada por semana O tempo é de disfarces. Na vida de cada dia, na família, na política, nas relações sociais e profissionais… Abundam por aí os actores de telenovela. Entre eles, por profissão e fidelidade ao guião, encontramos os melhores mestres no encobrimento da verdade e na arte do disfarce. Uma escola aberta com muitos alunos que reforçam as audiências da televisão e os milhões da publicidade. Há gente interessada nos disfarces, porque a verdade não dá dinheiro.

A verdade, de facto, há que exorcizá-la porque mete medo e os seus caminhos não são convidativos pelo esforço que exigem e pela cara destapada a que obrigam.

É preciso, por isso, passar ao lado, multiplicar razões para justificar opções que dão em becos, pôr sempre em causa o que se deve para se poder fazer apenas o que agrada e apetece. Um caminho fácil que até as crianças já aprenderam e de que não abdicam. Assim, elas se impõem aos adultos, sem admitir réplica, até porque os novos psicólogos vão dizendo que as crianças não se devem contrariar e é preciso libertá-las de traumatismos que dão lugar aos muitos fantasmas, companheiros incómodos de gente crescida, que não teve psicólogos na sua infância.

Vi há pouco um filme em que uma psicóloga aconselhava uma senhora, sua cliente, a que fosse sem receio até onde a levasse o coração e a paixão… Um dia apercebeu-se que, afinal, o íman que atraía a cliente era o seu filho. Nesse dia o discurso mudou e a sábia psicóloga passou também ela a ser cliente de uma sua colega. Estava baralhada com as suas contradições interiores, provenientes do facto de ser mãe e ser profissional. Pois. A gente entende. Quando a verdade não é regra, há que recorrer ao disfarce. Até que um dia…

Nada tenho contra os psicólogos. Os competentes até fazem muita falta a muita gente.

António Marcelino