Tema de “Um homem no país” faz 25 anos NUNO GONÇALO DA PAULA
Depois do marco que constituiu o disco “Um homem na cidade” (que há pouco tempo foi reeditado com interpretação de novas vozes portuguesas), em 1983, Carlos do Carmo publica um novo trabalho: “Um homem no país”, completando assim este ano, as suas bodas de prata. O disco vem na sequência de “Um homem na cidade”, sobre Lisboa, propondo este novo trabalho uma viagem por vários espaços de Portugal, falando das suas gentes, trabalhos, paisagens, maneiras de ser e falar. Por morte do poeta destes dois discos, não pôde realizar-se o desejo de fazer um intitulado “Um Homem no mundo”.
Na parte que nos diz mais respeito, a sétima faixa do disco chama-se “Fado moliceiro”, tem letra (como doze dos treze fados) de José Carlos Ary dos Santos, que morreria um ano depois do lançamento do disco, e música de Carlos Paredes. Nele trabalharam, entre outros, José Mário Branco, José Luís Tinoco, o aveirense Zeca Afonso e o decano dos directores musicais, talvez o maior arranjador e maestro português, Joaquim Luís Gomes.
Carlos do Carmo tem estado por diversas vezes em Aveiro. Mais recentemente, em 2000, antes da remodelação do Teatro Aveirense, em 2004 (por diligência da Junta de Freguesia da Vera-Cruz), e em 2006, acompanhado pela Orquestra Filarmonia das Beiras, o “Amesterdam Soloist Quintet” e Henk van Twillert, com os quais gravou um CD, “Saudades”. Aliás, Henk van Twillert é um grande músico holandês que se apaixonou por Aveiro e entre nós ficou, vivendo no coração da Beira-Mar.
“Fado moliceiro”, do ponto de vista musical é uma obra rara. É dos poucos temas que Carlos Paredes tem com letra e interpretação vocal, daí ser uma jóia rara e de inestimável valor. No CD “Uma guitarra com gente dentro” está uma interpretação de Carlos Paredes deste fado sem voz, e em que se realça, uma vez mais, a belíssima composição do singular intérprete português. Relativamente à letra, Ary dos Santos terá conseguido ir buscar à laguna de Aveiro a seiva poética da labuta diária de gerações, personificando-a, com o seu raro talento e originalidade, no barco Moliceiro.
“(…) Sou moliceiro
do teu lodo fecundo
sou a ria de Aveiro
o sal do mundo. (…)
(…) Morro de amor
nesta rede que teço
e é no sal do suor
que eu aconteço.
Para além da salina
o horizonte me ensina
que há muito mar
muito mar,
p’ ra lavrar!
p’ ra lavrar!”
“Um homem na cidade” tem ainda mais um apontamento: constitui também o primeiro CD de um artista português. Ainda em 1983, num programa da série “A vez e a voz”, tendo como convidado Carlos do Carmo, o artista cantou todo este álbum, e guardou para último o “Fado Moliceiro”, mas aqui com a interpretação da Guitarra Portuguesa de António Chaínho, que durante muitos anos acompanhou o artista. Quem fez a direcção musical desse programa foi o maestro aveirense Fernando Correia-Martins.
Mas este disco, para além de ser uma obra notável de grandes artistas portugueses – logo à primeira vista a sua capa e contra-capa de António Carmo – consegue ir buscar às raízes portugueses inspiração para belas melodias e poemas que bem podem ser considerados monumentos às gentes portuguesas. Tudo isto na vox magister de Carlos do Carmo.
O “nosso” “Fado Moliceiro” deveria ser, por maioria de razão, por nós conhecido e amado como coisa da nossa terra. Oxalá que, às portas da comemoração dos 1050 da existência histórica de Aveiro e dos 250 anos da elevação a cidade, se concretizem iniciativas que relembrem ou se dêem a conhecer este “Fado Moliceiro”, um fado de todos nós.
