Reitora bastante crítica sobre a crise financeira, na comemoração do 35.º aniversário da Universidade de Aveiro
“Só teremos futuro se conseguirmos inventar novos modelos de desenvolvimento e de afirmação da universidade numa sociedade que assente no respeito e valorização da condição humana. Uma sociedade onde os valores da ética e da solidariedade sirvam de pano de fundo ao exercício pleno e permanente dos direitos e deveres de cidadania”, afirmou a reitora da Universidade de Aveiro (UA), Maria Helena Nazaré, na cerimónia do 35.º aniversário da instituição.
A reitora recordou que “atravessamos um dos momentos mais difíceis dos últimos cinquenta anos: a profunda crise financeira, que, de acordo com muitos especialistas, também é económica”. “As causas da mesma obrigam-nos a inquirir sobre o modo como a Universidade tem cumprido o papel que, lhe compete, de consciência crítica da sociedade”, declarou.
Maria Helena Nazaré deixou algumas interrogações, pondo em causa o papel das universidades: “Questionou-se, em tempo, com independência e elevação, o papel do mercado e a sua influência quase endeusada nos processos de desenvolvimento económico e social dos países? Penso que não! Olhou-se com rigor para o sentido da educação? Talvez as universidades se tivessem centrado demasiado na missão de formar cidadãos com as competências necessárias à arte escolhida e menos na preparação de cidadãos solidários, conduzidos por princípios éticos e que se afirmam pelo rigor, qualidade e responsabilidade da sua intervenção”.
“A arrogância dos indivíduos e o excesso de confiança na fiabilidade de modelos, basicamente matemáticos, para descrever situações socialmente complexas estarão, talvez, na origem do descalabro financeiro actual”, sublinhou a reitora. Para Helena Nazaré, “a enormidade da crise deve levar as universidades a profunda reflexão e, no cumprimento da sua missão de educação, a procurar inspirar outros comportamentos e uma maior disciplina nas metodologias de abordagem dos problemas. As capacidades existentes para produção do conhecimento são de vital importância no enfrentar, com sucesso, dos grandes desafios globais, e que se avolumam, para além da crise financeira, com as mudanças climáticas, a delapidação dos recursos naturais, o terrorismo e os complexos problemas sociais resultantes, em grande medida, de graves défices de formação”.
A reitora da UA realçou que “os tempos de recessão são, historicamente, de investimento pessoal em educação. É importante que esta tendência seja favorecida, utilizando-se incentivos a tal dirigidos. Ainda, e cada vez mais crucial, é a aplicação de fundos em ciência e na criação de capacidade humana através da educação”.
Escola doutoral da UA
A reitora da UA mostrou-se crítica em relação à actual formação de doutores, que se destina a “formar investigadores para investigar através da investigação”, modelo que foi muito importante há três décadas, mas que agora não é o mais adequado, até porque “a maioria dos doutorados não fará carreira no Ensino Superior ou nas instituições de investigação, mas deverá trabalhar na indústria, nas empresas, na administração pública, na política, etc.”
Para Maria Helena Nazaré, a Escola Doutoral da UA faz sentido e é sua obrigação devotar-lhe a atenção e o esforço que a mesma exige “sem elitismos espúrios e que a nada, nem a ninguém aproveitam”. Nestes domínios, a UA terá “competência para afirmação internacional”.
A intervenção de Mariano Gago foi de grande optimismo no futuro, devido aos bons resultados estatísticos que Portugal está a conseguir em termos de ensino superior, da qualidade das instituições universitárias, do investimento público nas áreas do ensino superior, da ciência e da tecnologia, no crescente aumento do número de investigadores e doutorados, que já se situa ao nível da média da União Europeia.
Universidade de Aveiro passa a fundação
A Assembleia Estatutária da Universidade de Aveiro (AE) aprovou esta segunda-feira, 22 de Dezembro, por unanimidade, a transformação da Universidade em fundação pública com regime de direito privado. Na mesma sessão, a Assembleia Estatutária aprovou ainda os novos estatutos da Universidade de Aveiro.
