“A minha função é despertar em ti o desejo de mudares o mundo.” Aqui está um mote provocador para qualquer um, e sobretudo para um professor, para o pôr em prática e para o transmitir aos seus alunos. Aliás, foi da boca de um professor que ouvi este desafio, num filme que não era sobre a escola, mas sim sobre um menino que aceitou mudar o mundo. Fez contas e descobriu num simples esquema que se ajudasse três pessoas e essas três pessoas, por sua vez, acudissem a outras três pessoas cada uma, e assim por diante, o mundo seria melhor. O filme (Favores em cadeia – Pay it Forward, de 2000) é rodado à volta das tentativas aparentemente goradas do rapaz de 10 anos que, em vez de desistir de cada vez que lhe sai frustrada uma actuação junto de um dos seus alvos (cujo desenho ele vai anulando com um X por cima), procura sempre outras pessoas para ajudar.
O desejo de mudar o mundo instala-se e o mundo é salvo, na medida em que as personagens com quem o rapazinho se encontra mudam de vida, sobretudo actuando junto de terceiros, estendendo-lhes a mão para que não caiam no precipício da delinquência ou da desilusão. Estamos perante um cenário, um filme, uma história impossível? Sim, neste tempo de crise em que tudo parece concorrer para a desgraça, a depravação e a exploração humana. Mas as histórias impossíveis tornam-se possíveis todos os dias, por isso este filme é a realidade de muitas pessoas que aprendem a estender a mão e de tantas que aceitam que lhes seja dada nova oportunidade.
Quando comemoramos o 60.º aniversário da assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), estamos a despertar em cada um de nós o desejo de mudar o mundo. Aliada a sentimentos de frustração perante os enormes problemas e o desrespeito pelos direitos humanos que se vivem em tantas partes do globo, experimentamos uma imensa alegria ao ver que muito caminho foi percorrido nestes 60 anos. Claro que festejar esta efeméride pode apenas querer dizer que tomamos conhecimento de que ela existe. E isso o que vale? Muito pouco, se não tiver consequências. Nas escolas, um dos espaços ideais para despertar o desejo de mudar o mundo, conhecer a DUDH pode ser já um pequeno alerta. Mas é preciso tornar concretos os direitos de todas as pessoas, porque se “falarmos deles” como artigos fundamentais para os outros que estão longe de nós e que não pertencem ao nosso meio, nunca iremos tomar consciência de que o respeito pela individualidade do outro é o respeito pelo meu colega com dificuldades de integração, com comportamentos infantis para a sua idade, com problemas de higiene, ou por aquele que é cego, ou que tem apoio especial porque não se consegue concentrar, ou porque é disléxico, ou porque é vítima de maus-tratos em casa ou de bullying na escola, ou porque não veste roupa de marca, ou porque não tem telemóvel ou computador.
Quando discutíamos a importância da DUDH, assisti a duas provocações: “Eu respeito o J.P. e não preciso que uma DUDH me venha dizer que o devo fazer!” “Se eu não deitar fora esta maçã ou a comida que não me apetece comer, como é que isso vai ajudar as pessoas que têm fome?!” Ora aqui está um belo exercício de reflexão para este Natal.
Será que podemos mudar o mundo? Ou será que tudo não passa de mera retórica? Para os que acreditamos, o mundo foi salvo e neste Natal, mais uma vez, alegra-mo-nos com a vinda do nosso Salvador. Mas Ele convoca-nos para, com Ele, mudarmos o mundo. Como respondemos? Aceitamos o desafio? “A minha função é despertar em ti o desejo de mudares o mundo.” Quem aceita?
Feliz Natal…
