Sal e pesca na origem de Aveiro

1050 Anos Foi no longínquo dia 26 de Janeiro de 959 que surgiu aquela que é tida ainda hoje como a primeira referência documental à terra de Aveiro. A Câmara Municipal de Aveiro assinalou o dia 26 de Janeiro, e os 1050 anos do documento conhecido por “Testamento da Condessa Mumadona Dias”, com um vasto programa que incluiu uma sessão evocativa, uma homenagem aos antigos e actuais autarcas, a inauguração de duas exposições e o hastear de uma bandeira gigante. Textos de Cardoso Ferreira

Na sessão evocativa, realizada no edifício da antiga Capitania de Aveiro, a aveirense Maria Helena da Cruz Coelho, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, historiou os primeiros séculos de Aveiro e da sua região, nomeadamente desde o período da reconquista cristã do norte de Portugal (século VIII – IX) até ao final da dinastia afonsina (século XIV) e chegada da Infanta Joana (Santa Joana) a Aveiro (século XV), passando pela fase final da ocupação muçulmana.

No entanto, a palestra que proferiu centrou-se na figura de Mumadona Dias, mulher da alta nobreza, proprietária de terras entre Coimbra e a Galiza, entre as quais Aveiro e Guimarães. É precisamente na doação das suas imensas propriedades ao Convento de Guimarães, que ela fundou e junto ao qual mandou erguer o castelo de Guimarães para o proteger, que a condessa faz a menção a Alavário, topónimo que deu origem a Aveiro.

Nesse tempo longínquo, a pesca e sobretudo a produção de sal eram já referências económicas da região de Aveiro. Como principais actividades económicas então desenvolvidas, constituíam factor de atracção e de ocupação humana.

Maria Helena da Cruz Coelho referiu vários donatários e proprietários das terras de Aveiro, e da sua região, tanto nobres (entre os quais os fidalgos da Casa do Marnel), como conventos (nomeadamente os de Guimarães e do Lorvão), a Igreja (com des-taque para a Sé de Coimbra) e a família real (realçando o papel do Infante D. Pedro e da Infanta D. Joana).

Testamento de Mumadona Dias

Por testamento datado de 26 de Janeiro de 959, a condessa Mumadona Dias, então viúva do Conde D. Hermenegildo Gonçalves, doou ao Convento de Guimarães um vasto conjunto de propriedades, entre as quais “in território colimbrie uilla Alcaroubim quomodo illa obtinuit froyla guntesindiz per incartatione de gondisindo suariz cum omnibus prestationibus, suis terras in Alauario et salinas que ibidem comparauimus”, texto que Mon. João Gonçalves, no seu livro “Eixo na História”, traduziu para português actual: “no território de Coimbra, a Vila de Alquerubim, tal como a obteve Froila Gosendes , por encartação de Gosendo Soares, com todas as suas obrigações (;e) as suas terras no Alavário (Aveiro) e as salinas que aí comprámos”.

José Mattoso presente na cerimónia

O historiador José Mattoso (na foto, com o Bispo de Aveiro), considerado o maior especialista em História Medieval Portuguesa, actualmente a residir no lugar do Carvoeiro (Albergaria), foi um dos presentes na inauguração das duas exposições.

Ao “Correio do Vouga”, referiu que, como historiador, acha muito salutar”este evento, porque “todas as comunidades que existem devem procurar a sua identidade na vivência do passado. Quando não o fazem, não é sinal de vida, é como se estivessem doentes”. José Mattoso considera importante “procurar meditar no passado, na altura das efemérides”, não só quando essas efemérides correspondem a “glórias do passado”, mas também quando isso significa derrotas e momentos menos bons”. “É preciso procurar o que é autêntico no passado”remata.

“Aveiro: dos artefactos à escrita”

Na Galeria da antiga Capitania está patente a exposição “Aveiro: dos artefactos à escrita”, que apresenta diversos achados arqueológicos, alguns dos quais com mais de 25.000 anos.

Para os coordenadores desta mostra, Paulo Morgado e Sónia Filipe (na foto), a exposição pretende mostrar os “documentos” que provam a ocupam humana no actual concelho de Aveiro muito antes do aparecimento da escrita.

Na exposição estão em destaque os lugares arqueológicos, e respectivos achados, do Vale de Videira, Mamoa de Mamodeiro, Agra do Crasto, Lugar da Torre, Lugar da Marinha Baixa e Forno Cerâmico de Eixo.

“BI” no Museu da Cidade

O Museu da Cidade apresenta a exposição intitulada “BI”, coordenada por Maria Helena da Cruz Coelho (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) e Maria José Azevedo Santos (Arquivo Histórico da Universidade de Coimbra). A mostra ficará para a posterioridade no excelente catálogo agora editado.

Em exposição estão alguns dos mais relevantes documentos para a história de Aveiro, e que normalmente estão em arquivos fora da cidade, nomeadamente no Arquivo Nacional Torre do Tombo (em Lisboa), como é o caso do designado “Testamento de Mumadona Dias”.

A exposição pode ser vista de terça a Domingo, das 10h00 às 12h30 e das 14h30 às 19h00. O Museu da Cidade fica na Rua João Mendonça, 9-11