Presidir à Eucaristia em nome de Cristo (4)

Notas Litúrgicas 4. A orientação dos Santos Padres

Não é necessário sublinhar como esta fórmula é tradicional: já se lê em S. Cipriano, a propósito da celebração da Eucaristia, que deve corresponder com toda a exactidão à instituição de Cristo: «Porque, se Jesus Cristo, Senhor e nosso Deus, é Ele mesmo o sumo Sacerdote de Deus Pai, se ofereceu a Si mesmo em sacrifício ao Pai, se mandou que se fizesse este sacrifício em sua memória, evidentemente faz as vezes de Cristo aquele sacerdote que imita o que Cristo fez: na Igreja oferece a Deus um sacrifício verdadeiro e perfeito, se começa a oferecê-lo do mesmo modo como vê que o próprio Cristo o fez» (Epist. 63, 14).

Já S.to Inácio de Antioquia, querendo recomendar aos fiéis a veneração dos ministros sagrados, apresentava-os como pessoas que ocupam o lugar do Senhor; mas há que confessar que a sua «tipologia» é muito vaga e transmitirá a sua orientação indecisa aos tratados orientais de disciplina eclesiástica, que se sucederiam até aos finais do século IV: «Procurai com todo o afinco fazer todas as coisas em divina concórdia, sob a presidência do bispo, que ocupa o lugar de Deus, dos presbíteros que ocupam o do senado dos Apóstolos…» (Ad Magn. 6, 1; também em Ad Trall. 2, 1. 3.1).

Pelo contrário, S. João Crisóstomo dará ao seu ensinamento uma base mais sólida, apoiando-se na segunda carta aos Coríntios. Enfim, um comentário da liturgia bizantina, escrito em meados do século XI, a Protheoria, antecipa-se de modo surpreendente à forma de falar de S. Tomás de Aquino. Vale a pena citar a sua fórmula: «Se alguém pergunta como é possível aos Pontífices e sacerdotes de hoje ser os mediadores de realidades tão santas, que saiba que isso não é impossível, sobretudo aos que possuem esta dignidade, pelo facto de que representam a pessoa de Cristo, Sumo Sacerdote».

«Representar a pessoa de Cristo» equivale a exercer as funções de Cristo. Não há nisso uma alusão discreta à máscara do teatro, por meio da qual o actor desaparece para que apareça o personagem que tem de representar? E neste caso, a própria imagem não é sugerida pelo sentido primitivo da palavra latina persona? É, pois, necessário continuar a aprofundar a análise da nossa fórmula in persona Christi.

Nos textos conciliares que se citaram, como por outro lado na Summa Theologica, é sobretudo a função do sacerdote na consagração eucarística que é qualificada in persona Christi: sem excluir outras determinadas actividades do ministério sacerdotal, esta é considerada como a prova principal, no sentido mais profundo, da união do sacerdote com Cristo.

5. O sacerdote, representante de Cristo

Efectivamente, os comentaristas, gregos e latinos, puseram em relevo a índole muito particular do sacramento da Eucaristia. Enquanto que o ministro dos outros sacramentos se exprime de uma forma deprecativa: «É baptizado fulano…» ou «N., eu te baptizo…», quando se trata da Eucaristia, o sacerdote actua em forma recitativa; uma recitação que é acção, já que o sacerdote a completa com os gestos de Cristo: a fracção e a distribuição da comunhão. No contexto desta recitação, o celebrante pronuncia as palavras de Cristo na primeira pessoa: «Isto é o meu corpo»… S.to Ambrósio sublinha-o na sua catequese aos neo-baptizados: «Tudo o que disse ao princípio, é dito pelo sacerdote…; desde o momento em que começa a realizar o adorável sacramento, o sacerdote não utiliza já as suas próprias palavras, mas as de Cristo; é, portanto, a palavra de Cristo que produz o sacramento» (De sacramentis, IV, 14). Prescindindo dos debates teológicos suscitados mais tarde pelos orientais a propósito da epiclese, a tradição ocidental não duvidou nunca: as palavras de Cristo são pronunciadas pelo sacerdote com a mesma eficácia de Cristo a quem representa, do qual é a voz; representação e voz eficazes do que significam. As palavras in persona Christi têm um significado sobremaneira realista, que o pensamento cristão explicitou de modos distintos.

SDPL