XXX Domingo Comum – Ano C

À Luz da Palavra A Palavra deste domingo centra-nos na opção de Deus pelos humildes, pobres e marginalizados. Diz-nos que são estes, no seu despojamento, na sua humildade, na sua finitude, e até mesmo no seu pecado, que estão mais perto da salvação, pois são os mais disponíveis para acolher o dom de Deus. A primeira leitura define Deus como um “juiz justo”, que não se deixa “comprar” pelas ofertas dos poderosos, que praticam injustiças na comunidade. Ao contrário, ama os humildes e escuta as suas súplicas. Deus tem um fraco pelos pobres, pelos débeis, pelos oprimidos, por aqueles que o mundo considera “vencidos” e sem “peso”. Deus ama-os e não deixa passar em claro qualquer injustiça cometida contra eles ou qualquer comportamento que viole a sua dignidade. Sou eu, como Deus, sensível ao apelo dos pobres, vítimas da injustiça, da segregação, da exclusão? Aqueles que não encontram lugar na mesa dos privilegiados deste mundo encontram, através de mim, o rosto misericordioso e bondoso do Deus que os ama?

O evangelho define a atitude correcta que o cristão e a cristã devem assumir diante de Deus. Recusa a atitude dos orgulhosos e auto-suficientes, convencidos de que a salvação é o resultado natural dos seus méritos, e propõe a atitude humilde de um pecador, que se apresenta diante de Deus de mãos vazias, mas disposto a acolher o seu dom. É esta atitude de “pobre” que Lucas propõe aos crentes do seu tempo e dos nossos dias. Esta perícopa é a chave de ouro que encerra a mensagem fundamental da Palavra deste domingo. Desacredita por completo aqueles que se apresentam diante de Deus carregados de auto-suficiência, convencidos da sua “bondade”, muito certos dos seus méritos, como se pudessem ser eles a exigir algo de Deus e a ditar-lhe as suas condições. Propõe, em contrapartida, uma atitude de reconhecimento humilde dos próprios limites, uma confiança absoluta na misericórdia de Deus e uma entrega confiada nas suas mãos. Nos nossos tempos, as pessoas desenvolveram, a par de uma consciência muito profunda da sua dignidade, uma consciência muito viva das suas capacidades. Isto levou-as, com frequência, à presunção da sua auto-suficiência. O desenvolvimento da tecnologia, da medicina, da química, dos sistemas políticos, convenceram o ser humano de que podia prescindir de Deus, pois, por si só, podia ser feliz. Onde me tem conduzido esta presunção? Posso chegar à salvação, à felicidade plena, apenas pelos meus próprios meios?

A segunda leitura convida-nos a viver a vida cristã com entusiasmo, com entrega, com ânimo, como Paulo, que foi um bom exemplo da atitude que o evangelho propõe: ele confiou, não nos seus méritos, mas na misericórdia de Deus, que justifica e salva todos os homens e mulheres que a acolhem. O caminho que Paulo percorreu continua a não ser um caminho fácil. Hoje, como ontem, descobrir Jesus e viver de forma coerente o compromisso cristão, implica percorrer um caminho de renúncia a valores a que os homens e mulheres dos nossos dias dão uma importância capital. Implica ser incompreendido e, algumas vezes, maltratado. Contudo, à luz do testemunho de Paulo, o caminho cristão vivido com radicalidade é um caminho que vale a pena, pois conduz à vida plena. É este o caminho que eu me esforço por percorrer?

XXX Domingo Comum

Sir 35,15-17.20-22; Sl 34 (33),2-3.17-18.19.23; 2 Tm 4,6-8.16-18; Lc 18,9-14