Um outro olhar pelo desporto Todos sabemos do amor que o Papa tem ao desporto e da força que lhe reconhece como factor de construção de um mundo outro, do aproximar de fronteiras, do estreitar de corações. Talvez por isso, e não só, criou, no Vaticano, em Agosto passado, uma Secção de Assistência ao Desporto. Como novidade que é, estava eu a cogitar da sua utilidade em Portugal, quando o senhor Treinador da Selecção Nacional me ajudou na resposta:
“Vá-se…!” — foi assim que os mais discretos jornais trouxeram a saudação, convite ou conselho, com que tão alta individualidade ripostou a qualquer pergunta de uma jornalista no fim da brilhante vitória que a Selecção Portuguesa obteve sobre a sua congénere russa.
Toda a imprensa escrita ou falada foi célere nos mais diversos comentários, a ponto de o Presidente da Liga ter prometido conversar com o senhor Treinador. Atitude correcta, sem dúvida, ou não estarmos nós no Ano da Educação através do Despor-to, que Portugal assumiu… e o exemplo deve vir de cima – assim diz a sabedoria popular. Para esse tal ano – 2004 – arranjámos comissões, presidentes e secretários, despendemos verbas e fizemos manifestações, organizámos e participámos num Campeonato Europeu de Futebol, que foi um hino de louvor ao desporto e de unidade nacional, e participámos, brilhantemente, nos Olimpíadas e Paralimpíadas de Atenas.
Quando todos pensávamos que o Ano Europeu estava a dar fruto, vem o senhor treinador e zás… manda “pentear” a menina…. Aliás, o senhor presidente precisará de muito mais agenda, dada a linguagem que hoje se utiliza por esses campos de futebol, com os jogadores e treina-dores, os dirigentes e até os árbitros … Linguagem sem vergonha de ninguém, usada e abusada por tantos jovens que são ídolos, ganham milhões e aparecem nos ecrans de qualquer televisão. Mais ainda, este fim de semana terá, para ele, trabalho redobrado, dado que o jogo mais importante da jornada, até pelas equipas em questão, foi, apenas, o intervalo entre uma comédia em duas partes em que os actores eram os Dirigentes de um e do outro lado, as claques foram recebidas à pedrada e algumas garrafas pelo meio e a linguagem final… Fale, Senhor Presidente, diga-lhes que estamos no Ano Europeu de Educação pelo Desporto “que pode ser uma Escola de virtude e um instrumento de paz entre os povos” e depois… podem voltar ao normal onde o dinheiro marca o ritmo e os resultados o único caminho para lá chegar.
Se quiser sirva-se dos objectivos desta Secção que tem por nome: “A Igreja e o Desporto”: “…coordenar a assistência espiritual a desportistas e promover os autênticos valores do desporto”. Pretende-se, continua o documento, que o desporto e todos os seus praticantes usem esta oportunidade para promover um exercício que saiba unir com espírito construtivo as complexas exigências provocadas pelas mudanças culturais e sociais surgidas no último século com as ligadas à dignidade da pessoa humana.
Esta Secção teria como atribuições:
1. Ser na Igreja ponto de referência para as organizações desportivas nacionais e internacionais;
2. Sensibilizar as Igrejas locais para uma atenção à pastoral do desporto;
3. Favorecer uma cultura do Desporto que promova a actividade desportiva como meio de crescimento integral da pessoa e como instrumento ao serviço da paz e da irman-dade entre os povos;
4. Propor temas de análise do desporto sobretudo no seu ponto de vista ético;
5. Apoiar iniciativas e suscitar testemunhos de vida cristã entre os desportistas.
Fazemos votos que este “jogo” do Vaticano ganhe adeptos entre os nossos desportistas, sejam eles dirigentes, adeptos, árbitros ou praticantes.
