A tentação, hoje muito generalizada, de andar à superfície de si mesmo faz com que muita gente não consiga situar-se na realidade concreta, e que a sua vida seja vazia, cheia de inutilidades e de picos que ferem.
Aceitar a realidade e situar-se activamente nela, não quer dizer que não se vejam nela as limitações, distorções e falsos êxitos. Mas implica, também, com o distanciamento crítico normal que se pode e deve manter em relação às pessoas e às coisas, que se veja e aprecie o bem que existe, as tentativas de bem que fazem parte do projecto de muita gente que vive ao nosso lado ou ao alcance da nossa apreciação, e de conhecermos a sua honestidade e pronta disponibilidade para colaborar em causas válidas. Implica, ainda, que não nos agoniemos com as dificuldades e os incómodos, mas saibamos tirar daí ocasião de amadurecimento e de contínua purificação.
A apreciação da realidade, em aspectos da convivência que parecem manter mais acordadas as pessoas, pensemos no futebol e na política, é uma apreciação frequentemente facciosa e geradora de divisões e conflitos. Tudo está certo de um lado, tudo está errado do outro.
Situar-se na realidade, como ela é, supõe muitas vezes deitar fora, por inadequados, esquemas feitos em tempos idos e experiências vividas em outros contextos, que foram moldando mentalidades e vidas e se colaram, mas agora apenas dificultam a mudança interior que não se pode adiar.
Viver em pluralismo, em democracia, em clima de direitos humanos assumidos, em contexto de secularização, em exigência de legítima privacidade, já não é uma opção, mas uma normalidade diária, carregada de sentido e de desafio. Só o consegue com algum êxito, embora com esforço permanente, quem se esforça diariamente por conquistar e conseguir liberdade interior. É esta que permite saber respeitar e exigir respeito, fazer e acolher propostas válidas, defender serenamente a verdade em que se crê, aceitar as críticas dos outros, ouvir o que agrada e não agrada e permanecer sereno e lúcido, não se negar à responsabilidade pessoal e nunca se sentir derrotado, mesmo quando se proclamam, contra si, vitórias mais ou menos efémeras.
As certezas não são sempre verdades, nem definitivas as experiências havidas. Viver com segurança, não é viver sem incómodos. Ter fé não é gozar de imunidade em relação ao que é normal para todos.
A vida diária não favorece aqueles que apenas vivem. Esse caminho está pejado de desilusões. A vida só é dom para quem faz dela, em cada dia, uma oportunidade com sentido e um projecto com futuro.
Os processos educativos e o testemunho dos adultos jogam aqui uma importância decisiva. Aqui o esforço de todos para despoluir o ambiente.
Nem a realidade se pode iludir, nem se improvisa a liberdade interior.
