Fé testemunhada, reserva de humanidade

Três factos muito significativos indiciam que estamos num momento crucial da história da Europa e do Mundo: o conflito aberto entre o Governo de Zapatero, em Espanha; a oposição ao indigitado Comissário Rocco Buttiglione, na União Europeia; a eleição disputada entre Kerry e Bush, nos Estado Unidos da América.

1 – Não é de agora, a tentação e tentativa de transformar a sadia neutralidade – a laicidade – do Estado em privilegiado instrumento de laicização da Sociedade. Ao Estado cabe dar suporte à iniciativa da Sociedade Civil, reduzindo ao mínimo a coincidência do estatal com o público, seja em que domínio for, para permitir e fomentar o salutar pluralismo de convicções e propostas, de grupos e organizações. A regulação e coordenação dessa diversidade não se confunde com a imposição de modelos, que configura novos totalitarismos! Para além do mais: pomos em risco a possibilidade de futuro, sempre que, com uma mudança ideológica de poder, se pretende desenrolar um processo de completa transformação dos edifícios jurídicos.

2 – A propósito da contestação a Rocco Buttiglione, partilho em absoluto as ideias de Mário Pinto (ver Público de 25.10.04), ao afirmar que “uma coisa são as convicções religiosas, éticas e morais cristãs, que ele pessoalmente defende, outra coisa é a política social e cultural em democracia, que possui autonomia, embora deva respeitar o direito natural”. Temos exemplos bem claros de pessoas que, exprimindo sem rodeios as suas convicções – católicas, como agnósticas ou outras – gerem as coisas públicas com isenção irrepreensível, sem deixar de ter presentes os valores pelos quais se orientam. A este respeito o alarido da contestação não será, mais uma vez, o suporte de alguma comunicação social a um “fundamentalismo laicista”?

3 – As eleições nos Estados Unidos não são um problema só daquela grande Nação. Num contexto de globalização – e enquanto este País for uma super-potência do peso que é – razão têm alguns para defender que a eleição não é apenas uma questão interna. A prová-lo, vêm os apoios explícitos ou velados de Governos com assento no protagonismo europeu e mundial. Porque em causa estão rumos que envolvem muitos interesses, políticos e económicos, sociais e mesmo religiosos.

Afirmando-se ambos os candidatos de profundas convicções religiosas, a coerência com essas convicções tem tradução de prática social diversa, que arrastará consigo projectos legislativos também diferentes. Daí, a multiplicação de exortações, de programas informativos, de iniciativas de captação de voto, mesmo das confissões religiosas. Não é fácil discernir o resultado final desses empenhamentos. Uma coisa é certa: entende-se que a Religião não pode ter efeitos sociais e políticos neutros; por isso, se entra no combate de uma forma aberta. O que não será de todo insignificante!

Uma coisa é certa: a fé, testemunhada e proclamada, interpela e incomoda, constitui-se em necessária reserva de humanidade!