Moda é moda. Jejum é jejum

Em cima da linha Há por aí um refrão, que, quando usado a despropósito, faz lembrar aqueles discos velhos já muito riscados ou as antigas grafonolas quando começavam a ficar sem corda. Diz-se e apregoa-se que a “tradição já não é o que era”, quando se pretende trazer ao de cima aquilo que já está morto e enterrado há muito tempo. Pretende-se ir buscar um passado, já esvaziado pelo tempo, para se tentar alimentar um hoje apenas carregado de saudosismo, muitas vezes (quase) doentio. Há, na verdade, experiências do passado que não devem ser retomadas, nem sequer com roupagens modernas, ainda que muitas outras continuem a ter uma actualidade inquestionável. Há modas e modas, há modas que passam e modas que ficam, há modas de andar na moda e modas de andar fora de moda.

Vai sendo moda hoje ver por aí toda a gente calcorrear quilómetros porque está na moda, quando a gordura excessiva ou o stress nos inquietam, vai sendo moda que a gordura já não é formosura, e, vai daí, começam a aparecer planos e projectos para emagrecer com máquinas e ginásios, com médicos e… dietas. As dietas estão na moda: não será por causa de uma elevada qualidade de vida, mas porque os parâmetros da actualidade assim o exigem. Lá se vai vendendo a “mercadoria” e as pessoas aceitam os desafios (entenda-se sacrifícios, no sentido doloroso). Repare como tanta gente diariamente se auto-massacra para andar nos trinques: são roupas ora apertadas ora curtas, mesmo no tempo do frio, são os sapatos-pirolito, são as garrafas de água, são os pesados jejuns de emagrecimento, etc. Para quê tudo isto? Para manter a linha, para andar na moda! Mas, como dizia a minha avó, “quem corre por gosto não cansa”.

Acredite que até, bem vistas as coisas, não tenho nada contra isso, pois cada um é o condutor da sua própria vida! Está tudo bem e ninguém tem nada com a vida dos outros!

Todavia, se eu tiver o atrevimento de fazer uma proposta séria e fundamentada para um outro caminho de sacrifício (entenda-se aqui o verdadeiro sentido da palavra, isto é, tornar sagrado aquilo que faço), se eu quiser dar à minha dieta uma projecção diferente, dar-lhe um sentido de libertação, atribuir-lhe uma marca de auto-domínio, desejar dizer a mim próprio que o comer e o beber com moderação pode realizar um crescimento interior capaz de abrir a minha vida ao sentido do sagrado, …

… aí pára, porque tu estás fora da moda, és um antiquado, isso é do tempo do obscurantismo e da inquisição…

Aceite o desafio: jejum é sempre jejum, quer se faça com uma intenção ou com outra. Porém, sabemos que são os objectivos que dão mais valia àquilo que fazemos: não são as coisas em si somente que têm valor, mas são antes as razões que me levam a entrar por esses caminhos. Daí que o jejum quaresmal não possa estar fora de moda. Poderá estar ausente dos nossos gostos, desejos ou objectivos, mas nunca poderá estar fora de uma vida que tem outros ideais que não apenas os do corpo.

Se, por uma qualquer razão, eventualmente mesquinha, sou capaz de me sacrificar, porque não me assiste o direito de o fazer numa perspectiva marcadamente evangélica?

E se eu estou nesta linha, por que razão me causa tanta angústia assumir o jejum?