A diversidade faz a Igreja

Dia Mundial da Juventude, celebrado em Ílhavo no Domingo de Ramos Kátya, 26 anos, professora do primeiro ciclo, apresenta com dinamismo as actividades do JA: “Nós não pudemos trazer para aqui pessoas. Elas é que são a nossa matéria-prima. Mas temos aqui o João e a Rita [aponta para uns bonecos impressos em folhas A4], que deram forma ao imaginário deste ano. E temos postais para vender. Também podem ver uma projecção sobre as actividades do JA”. Mas o que é o JA? JA quer dizer Jovens em Acção. É a sigla do grupo que dinamiza boa parte da pastoral juvenil da paróquia de Esgueira. A Kátya explica a origem do grupo: “Estava a incomodar-nos que em Esgueira não se fizesse nada. A paróquia era um local de passagem [de padres novos ou seminaristas] e muito do dinamismo ia-se perdendo ou não tinha continuidade. Por isso, fizemos o JA. E a nossa principal mensagem é: ‘Incomoda-te’”. A Kátya falava à entrada da barraquinha do seu grupo. Como ela, muitos outros jovens e alguns adultos apresentavam as suas actividades na feira de grupos e movimentos que decorreu nos pavilhões do mercado municipal de Ílhavo no domingo.

Uns metros à frente, no “átrio” de outra barraquinha, duas dezenas de jovens, numa roda, cantavam com gestos. Era o grupo Adoramuste, jovens do renovamento carismático. A quem por lá passava, representavam a cena bíblica de “Jesus e a Samaritana” e convidavam a tirar água fresca do poço. A água fresca vinha em papéis com mensagens como esta: “Por muito que tenhas duvidado, temido ou traído na vida, hoje estás aqui, precisamente no lugar onde deves estar! Confia no fio resistente que une os momentos da tua vida… Ele foi tecido por Deus que é Amor”.

Na “barraca” do lado, ladeada por um jipe todo-o-terreno, meio de transporte imprescindível para os missionários, Pedro Barros, 24 anos, vestido com roupas tradicionais africanas, divulgava as actividades SDAM (Secretariado Diocesano de Acção Missionária). Este organismo, nos últimos anos, proporcionou a várias dezenas de jovens as “férias missionárias” no Brasil ou em países africanos.

Cada barraca desta feira revelou imensas descobertas aos cerca de oitocentos jovens que as visitaram em pequenos grupos de “peddy-papper”. Através de apresentações em “power-point”, folhetos, fotografias, jogos ou mensagens, os grupos, movimentos e serviços da diocese que trabalham com jovens mostraram que a frase “os jovens não fazem nada” não tem razão de ser. A pastoral juvenil em Aveiro tem muito dinamismo. Talvez uns tenham que conhecer mais os outros e participar nas suas actividades. Mas para isso mesmo é que esta feira serviu. “A diversidade de movimentos e carismas é que nos transforma em igreja”, disse ao Correio do Vouga o Pe Rui Barnabé, responsável pelo Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil, organismo que coordenou o DMJ em colaboração com os jovens da paróquia de Ílhavo.

“Namorar é andar na lua”

Curiosamente, algumas das tendas mais interactivas eram animadas por adultos. Na da Preparação Remota Para o Matrimónio (organismo da pastoral familiar) pedia-se aos jovens que escrevessem frases sobre “Namorar é…”, escolhia-se o “Valor 2005” (ganhou o Respeito Mútuo, com 25 por cento dos votos) e havia um concurso de Mensagens de Amor. Ganhou uma jovem de Ílhavo com esta: “Tudo aquilo que pensei que fosses, tu ultrapassaste. Os momentos perfeitos que sonhei contigo tornaram-se realidade. Tudo o que sou, tu és. Somos um. Eu e tu somos um para sempre.” Na lista imensa das frases sobre “namorar” havia desde o “namorar é andar na lua” ao “a namorar aprendemos a partilhar e a conhecermo-nos melhor”. Já na tenda do Secretariado Diocesano de Ensino Religioso nas Escolas (SDERE – coordena os professores de EMRC) imperava a pedagogia. Por exemplo, no jogo as “aparências de bem” ofereciam-se falsos ovos-moles. Por fora pareciam verdadeiros. Quem os provesse verificava que por dentro só tinham farinha seca. O objectivo era simples: mostrar que nem tudo o que parece é um bem. Disse Elisa Urbano, responsável do SDERE que alguns jovens comeram na mesma. Seria um sinal de que não são capazes de distinguir o que é bom do que não presta?

Muitos outros movimentos ou grupos da diocese estavam representados, embora também se notassem algumas lacunas. Estavam lá a JOC (Juventude Operária Católica), a ju-ventude feminina de Schoenstatt e a masculina (estão ambas a preparar um grande encontro na Alemanha, visto que Schoenstatt fica perto de Colónia, o local de realização da jornada mundial, em Agosto), o Corpo Nacional de Escutas, a paróquia da Glória com os seus organismos juvenis (Jufra e Jeofater – juventudes franciscanas, acólitos, etc.), o Seminário de Aveiro, o Secretariado de Catequese de Infância e Adolescência e ainda o Arciprestado de Aveiro.

Espaço sempre muito frequentado foi a “tenda” “Viemos adorá-lo”, onde se cantava e rezava à maneira de Taizé. Quem esteve em Taizé ou no encontro europeu de Lisboa pôde recordar os bons momentos de reflexão. Os outros puderem ter um “cheirinho” desse espírito.

“Alertem os distraídos”

As actividades previstas para a tarde correram bastante bem com o concerto dos ilhavenses Natum Dei a fazer saltar os jovens, mesmo debaixo de alguns pingos de chuva. Foi um início de tarde animado, onde as memórias de outrora estavam à flor da pele, sobretudo para aqueles que há alguns anos acompanhavam o trabalho deste grupo e sabiam, como deu para observar, as letras de cor da maioria das músicas! Foi uma hora animada onde não faltaram aplausos, pulos e muita animação.

Depois do concerto e já num am-biente de uma certa serenidade deu-se a Bênção dos Ramos e, logo de seguida, a Eucaristia, presidida por D. António Marcelino, que já estivera no encontro, logo pela manhã, na oração inicial. Na homilia o bispo de Aveiro lembrou que “o Domingo de Ramos é como que a síntese de toda a vida cristã” e que “o Evangelho deste dia deve dar-nos força para toda a vida”. “Do triunfo da bênção dos Ramos à Paixão de Cristo podemos tirar a maior lição da nossa vida: nem a glória, nem as humilhações ou a dor são definitivos, só o amor de Deus é infinito”.

D. António Marcelino deixou um apelo: “É preciso ir ao encontro dos outros, dos que não vieram, levando o que viveram aqui, para que este dia valha a pena. Alertem os outros que andam distraídos das coisas de Deus”. A julgar pelos organismos juvenis presentes no dia, este apelo já foi assumido. Mas se olharmos para os jovens indiferentes, ainda há muito a fazer.

Catarina Pereira / J. P. F.