Quatro livros para comemorar o Dia Mundial

Dia 23 de Abril é Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor. A melhor forma de o comemorar é ler. O CV deixa quatro sugestões de excelentes livros: um do Papa, outro sobre a Eucaristia (estamos no ano dela); um de poesia (autor: poeta e padre), outro de contos (de autor aveirense). J.P.F.

Memória e identidade

João Paulo II

Bertrand Editora

162 páginas

A grande política vista pelo Papa

Foi anunciada várias vezes como terceira parte da autobiografia de João Paulo II. Porém, não o é. “Memória e Identidade” não são as memórias de um Papa. São, sim, as reflexões sobre o mal (“mysterium iniquitatis”) de um homem que foi Papa, atravessou o séc. XX e enfrentou esse mistério nas suas formas mais descaradas, o nazismo e o comunismo. João Paulo II reflecte ainda sobre a liberdade, a pátria, o Estado, a Europa, a democracia (a partir de uns colóquios de 1993, mas com uma actualização eu lhe permite falar do terrorismo do início do terceiro milénio).

Quem esperava uma sequência de “Levantai-vos! Vamos” desilude-se. Em contrapartida, ganha uma leitura papal dos grandes temas da História e Política do séc. XX e inícios do séc. XXI, com amplas referências aos documentos do Concílio e às encíclicas que o próprio João Paulo II escreveu.

A celebração da Eucaristia

Anselm Grün

Paulinas

70 páginas

O fascínio do grande sacramento

Na Eucaristia concentram-se os principais problemas da Igreja actual e até da sociedade” – é uma das primeiras afirmações do livro e parece prometer demasiado. Mas a seguir monge beneditino explica: A Eucaristia é celebração. A nossa época tem tendência para a indefinição, para o que é informal. A Eucaristia é memória. A nossa época é um tempo sem história. Tudo se reduz ao aqui e agora. A Eucaristia é celebração em comum. A nossa época é de individualismo… Como fazer? Dar uns toques de maquilhagem à Eucaristia? Ou entendê-la de forma a que nos fascine de novo? É esta segunda via que o autor escolhe. Tomar consciência da Eucaristia é o melhor que podemos fazer para “descobrir um novo gosto pela vida”.

Provavelmente o melhor livro sobre a Eucaristia publicado nos últimos tempos. Para mais, como objecto, é uma edição muito bem cuidada (faz parte de um conjunto sobre os 7 Sacramentos).

A Estrada Branca

José Tolentino Mendonça

Assírio & Alvim

48 páginas

Busca permanente do sublime

“Apenas Deus os teria contados / mas a publicidade aos produtos Bioscalin / garante inquietantes milagres capilares / e revela / são 130 mil os cabelos da nossa cabeça” (La Repubblica, pág. 18)

Tolentino Mendonça é padre e poeta. A ordem dos factores não interessa porque, como afirma o poeta-padre, “que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo?” E “o poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia”. O texto destas duas últimas afirmações lembra o início do prólogo do Evangelho de João, mas vem no final de “A Estrada Branca”, a última obra do padre madeirense. Sendo padre o poeta, não se pense, contudo, que se trata de poesia “apologética”. O sublime não tem cor. “Eu por mim nunca sei / se estou irremediavelmente longe ou demasiado perto de Deus / às vezes pergunto-me quantas vezes o corvo deverá / bater as asas negras / entre o meu corpo e o seu” (Via Del Governo Vecchio, pág. 43).

As fadas não usam Batom

João de Mancelos

Vega

118 páginas

Onze contos

bem-humorados

“As fadas não usam Batom” é um conjunto de onze contos muito bem-humorados, ainda que por vezes com alguma melancolia. Quase sempre há o elemento água (do mar da Figueira da Foz, da torneira da casa de banho, do lago, da chuva). Mas não são contos sobre a água. São sobre uma adolescente que apaixona pelo teatro, um barco que naufraga, um amor desfeito que persiste como o sabor de um chocolate amargo, dois gémeos com um segredo, os primeiros amores da vida…

João de Mancelos, residente em Aveiro (natural de Coimbra), é doutorado em Literatura Norte-Americana e professor de Escrita Criativa no Pólo de Viseu da Universidade Católica Portuguesa. “As fadas não usam Batom”é um conjunto de bons exemplos de escrita criativa e narração atraente, a começar pelo conto com o mesmo nome que abre o livro. Actualmente, João de Mancelos prepara um “romance humorístico acerca de um tema muito sério: o da reconciliação”. A acção decorre na sociedade actual, marcada pela rápida mudança de valores.