“Desejo que de Assis venha um apelo de paz e um convite para o esforço comum de salvar a humanidade”

As religiões e os não crentes numa busca comum para anunciar “paz e bem” a um mundo marcado pela incerteza. Remo Bodei, filósofo, professor das universidades de Pisa (Itália) e Califórnia (EUA), representa uma das “novidades” da peregrinação inter-religiosa prevista para a próxima quinta-feira em Assis, com a presença de Bento XVI. O papa-teólogo quis que, na cidade de Francisco, também estivessem presentes alguns “não crentes” para representar a universalidade do evento que lembra os 25 anos do primeiro encontro inter-religioso desejado por João Paulo II. Entrevista de Lorenzo Fazzini, publicada no jornal “Avvenire”, propriedade da Conferência Episcopal Italiana.

Professor Bodei, porque vai participar do encontro inter-religioso de Assis?

O convite chegou-me através do Cardeal Gianfranco Ravasi. Eu já tinha estado em Assis para um encontro semelhante em 1998 com o então primeiro-ministro Massimo D’Alema. Aceitei esse apelo de muito bom grado, porque o debate com o sagrado e as religiões é sempre interessante. Ninguém sabe ao certo o que acontece no mundo e na própria vida. A fé também é cheia de dúvidas: por isso deve ser levada avante uma busca comum pela verdade. Especialmente no contexto actual, em que o panorama mediático e a política são marcados por um populismo que infantiliza as pessoas, como denunciado pelo filme “Truman Show” [“A vida em directo”, de Peter Weir, com Jim Carey], onde a mentira substitui a realidade.

Além disso, na nossa situação, a verdade é concebida como um “bolo a ser compartilhado”, em que cada um recebe uma fatia sob a condição de que o outro receba outra. Mas essa é uma visão da verdade degenerada em opinião… Pelo contrário, Bento XVI, a quem eu estimo pelos seus escritos sobre Agostinho, tem o grande mérito de ter sublinhado o valor “grego” do cristianismo, lembrando que a fé não é só intenção ou emoção, mas também racionalidade.

Nessa busca pela verdade, crentes e não crentes “pensantes” podem colaborar?

Desejo que, como fez o cardeal Bagnasco em Todi, a Igreja voe sempre mais alto. Nunca acreditei em compromissos com aqueles “ateus devotos” que instrumentalizam a religião. Acredito que, da Cátedra dos Não Crentes do Cardeal Martini até o Átrio dos Gentios de Bento XVI, a instituição eclesial manifestou a disponibilidade de reler (sem pôr em discussão) os seus próprios dogmas em relação ao presente. O Papa Gregório Magno dizia que os textos sagrados crescem com a leitura de quem os leva em consideração. A Igreja tem os seus problemas na sua relação com o moderno, embora este último não seja algo totalmente positivo.

Mas certamente está a florescer a consciência de que, se os dogmas religiosos entram em contacto com as ideias do mundo e saem da sua clausura, isso torna-se um facto positivo também para os “laicos”, isto é, aqueles não crentes que não querem viver na banalidade. E não se conformam como o astrónomo Laplace, quando disse: “Perscrutei o céu e não vi Deus”. Redescobrir a dimensão do sagrado, especialmente num período de crise como este, em que a economia e o futuro dos jovens parecem ser incertos (nós, ocidentais, tornar-nos-emos mais pobres), constitui uma tarefa comum para crentes e não crentes, para além das cores dos partidos. É aí que se situa o justo papel da relevância pública da Igreja, sem que ela chegue a ditar leis. Essa colaboração é, em última instância, benéfica para a sociedade.

Assis remete para a figura de São Francisco. Qual a herança do “Poverello” para o nosso tempo?

Eu sou um leitor dos livros de Chiara Frugoni, que tanto estudou a vida de Francisco. E não compartilho as leituras daqueles que consideram o seu pai melhor do que ele, ou preferem a abordagem capitalista à escolha da pobreza. Além disso, se lermos o Evangelho, encontramos um Jesus que vive como um homem que se privou de tudo, que dorme onde der, um “vagabundo” muito exigente (“Eu vim para trazer a espada”). Em suma, Cristo – e Francisco com ele – traz um radicalismo que, também no nosso tempo, faz bem. Considero que, na situação actual, uma redescoberta da espiritualidade franciscana, sob a marca da pobreza e da atenção ecológica de Francisco, devem ser muito bem-vindas.

Qual mensagem que o senhor deseja que saia do encontro da Úmbria?

Penso que o desejo do “pax et bonum” (“paz e bem”), num mundo em grande turbulência como o nosso (pense-se na Líbia…), seja de extrema eloquência. Desejo que venha um apelo de paz e um convite para se sentir em busca, todos os homens, no esforço comum de salvar a humanidade da deriva rumo ao pior. Considero este encontro de Assis como uma etapa, um degrauzinho (Dante fala de Assis como de “ascese”, “subida”) para uma maior coesão e busca daqueles valores universais como os direitos humanos, a tolerância, a rejeição do confronto, que nos congregam como seres humanos.

Tradução: Moisés Sbardelotto/Unisinos; Adaptação: CV