Colaboração dos Leitores Eu penso que nunca uma «cadeira vazia» teve tantas honras e destaque nos noticiários, com fotografia em grande plano. A razão é sobejamente conhecida: aí, nessa altura, devia estar sentado Liu Xiaobo – laureado com o Prémio Nobel da Paz – 2010 e a cadeira destinava-se a ele no momento em que iam ser distribuídos os Prémios Nobel.
Não estava lá Liu Xiaobo, activista chinês, porque estava preso na China, condenado a 12 anos de cadeia por lutar contra as violações dos Direitos Humanos na China e pela falta de liberdade de expressão. Quando se soube da nomeação do activista para Prémio Nobel da Paz, a sua mulher que se declarou “absolutamente encantada”, pediu ao Governo Chinês para libertar o marido. Sabemos que tal não aconteceu e no dia 10 deste mês de Dezembro, ela própria e familiares mais próximos foram mantidos em prisão domiciliária e impedidos de ir a Oslo para receber o Prémio. Dias antes centenas de dissidentes chineses foram colocados em prisão domiciliária, sem qualquer contacto com o exterior.
As estações de televisão chinesas estavam filtradas e muitos sites da Internet da BBC, CNN e outros órgãos de comunicação foram bloqueados.
O percurso de vida do galardoado aponta para a justeza da atribuição. O Presidente do Comité Nobel norueguês, Thorbjoem Jagland mostra que a atribuição do galardão foi justa e tal facto será sempre lembrado quando se falar da luta pela liberdade e pelo respeito dos direitos humanos.
A China, que recebeu muito mal tal Prémio, antes da sua atribuição e quando só se «falava» nessa possibilidade, quis intimidar o Instituto Nobel Norueguês, acenando com possíveis conflitos diplomáticos que poderiam surgir. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros disse que Liu estava detido porque violara as leis e as suas atitudes eram “totalmente contrárias aos propósitos do Prémio Nobel da Paz”. Nessa altura pôs em causa a manutenção de relações comerciais entre os dois países, referindo-se, talvez veladamente, à Statoil – gigante petrolífera.
Liu Xiaobo promoveu em Dezembro de 2008 a chamada “Carta 08” – em analogia à “Carta 77” dos dissidentes da Checoslováquia comunistas. Também depois de ter participado nos protestos da Praça Tiananmen em 1989, foi detido várias vezes. O seu percurso foi um entrar e sair da prisão.
Mas lamentavelmente outros dissidentes foram contra a escolha, eles que também lutam pelos mesmos objectivos. Numa virulenta carta acusaram Liu de difamar os outros dissidentes e de muitas vezes ser condescendente com os líderes chineses.
Sem querer fazer juízos de intenções, o Prémio Nobel é também muito apetecido monetariamente e não deve haver muitas “Madres Teresa de Calcutá”, que laureada também, fez reverter o valor monetário do Prémio para auxílio aos mais desfavorecidos.
E não posso falar de Prémio Nobel da Paz, sem me interrogar: O que levou o Comité a nunca ter nomeado João Paulo II para tal Prémio? Houve alguém, que em toda a sua vida tanto tivesse feito pela liberdade e pelo respeito dos direitos humanos? E se me argumentam que o Prémio deve ser atribuído a quem deu provas “no terreno”, é porque se esqueceram que Karol Woltjila foi operário e viveu e estudou na clandestinidade, quando a sua Polónia estava sob o domínio comunista. Sentiu na pele a perseguição.
E que dizer do Prémio Nobel – 2009? Coube a Baraka Obama. Será que o seu percurso passado e actual justificou tal escolha? Presidente de um país que ainda admite a pena de morte e que legalizou o aborto, pode considerar-se defensor dos Direitos Humanos, quando não respeita o valor da vida humana? E o fecho de Guantánamo ficará para as Calendas Gregas?
Maria Fernanda Barroca
