Onde é que as filhas de José Saramago vão depor uma flor?

Colaboração Como disse um conhecido jornalista português, “morrer é ir para longe sem dizer adeus”.

Não sei se José Saramago disse adeus a alguém na hora da morte. É natural que sim.

Morreu um dos maiores vultos da literatura portuguesa. Como romancista e escritor, foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Galardão que honra o nosso país e o homenageado. Mais um a juntar-se ao nosso Professor Egas Moniz.

O nome de José Saramago ficará para sempre gravado na história da literatura portuguesa.

Muito se disse e se escreveu quando deixou para sempre o nosso convívio.

Li, vi e ouvi os comentários mais diversos sobre a vida, obra e personagem de José Saramago. Nem “L’Osservatore Romano”, jornal do Vaticano, deixou passar em claro a sua figura e a sua obra, referindo-se à sua morte. Pessoalmente, admiro-o como escritor, mas ponho algumas reservas em tudo o que escreveu, principalmente, quando se refere à fé, aos costumes, a Deus, que, como ateu professo que era, não aceitava; a Jesus Cristo, à sua vida e à sua obra, como homem e como Deus em que não acreditava.

É estranho, como grande intelectual que era, ter-se recusado a participar, determinantemente, no encontro do Papa com os intelectuais portugueses aquando da sua visita a Portugal.

Mas, enfim, cada um é como é e há que respeitar a sua liberdade.

Também confesso que não gostei do espectáculo patético (de punho cerrado) que vi no cemitério do Alto de S. João.

Senhoras e senhores, os nossos mortos merecem mais respeito. Deixem dormir os nossos mortos em paz. Aquele lugar é sagrado. Quem não o entende assim, não vá lá, fique cá fora, ou então vá para o cemitério dos cães no jardim zoológico, que fica ali perto.

Como são diferentes e dignos os funerais católicos…

Mais, também não gostei e sou totalmente contra o forno crematório. Isto é uma falta de respeito com o que temos de mais sagrado, na vida, o nosso corpo. “Lembra-te, homem que vieste da terra e à terra hás-de voltar”. Queimar o corpo humano, isto não lembra ao diabo… Não sei como é possível haver em Portugal alguém que se disponibilize a um acto destes!

Como o corpo desapareceu, onde é que as filhas de José Saramago vão depor uma flor, querendo homenagear e recordar a memória de seu pai?

Já do lado de lá, e tendo já enfrentado a verdadeira realidade da vida eterna (quer tenha acreditado nela ou não) e depois de ter visto o que viu e vê (fala um católico convicto), se ele pudesse voltar, neste momento, à Terra, muito teria que contar. Como o mundo é diferente, e como nós muitas vezes andamos tão enganados ao cimo da Terra!

Daí, eu tomar a liberdade de colocar na boca e na pena de José Saramago o espectacular soneto que o nosso poeta Bocage escreveu pouco tempo antes de morrer.

Ao menos, Bocage disse adeus. De certeza que hoje José Saramago pouco ou nada alteraria à sensacional e emotiva mensagem que Bocage nos deixou.

Já José Saramago não sou!… À cova escura

Meu estro vai parar desfeito em vento…

Eu aos céus ultrajei! O meu tormento

Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura

Mais em prosa que em verso fez meu louco intento.

Musa!… Tivera algum merecimento,

Se um raio da razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria

Brade em alto pregão à mocidade,

Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui… A santidade

Manchei!… Oh! Se me creste, gente ímpia,

Rasga meus livros, crê na Eternidade!

Basílio de Oliveira