De que falamos ao dizer “pecado original”? (2.ª parte)

Perguntas e respostas de Antropologia Teológica – 4 Da semana passada: O teológo J. L. Ruiz de la Peña resume a teologia do pecado original do Concílio de Trento nos seguintes pontos: a) a existência do pecado original, ‘morte da alma’; b) que afeta interiormente a todos; c) do qual só nos pode libertar a graça de Jesus Cristo, comunicada pelo batismo; d) que este apaga totalmente quanto há de pecado no batizado, sendo que, por isso, a concupiscência (uma tendência que seduz o homem para o mal) remanescente após o batismo não é já pecado em sentido próprio nos batizados; e) e que a situação universal de pecado tem como fator desencadeante a ação histórica de uma liberdade humana.

A alínea c) afirma que é Jesus Cristo o único salvador, em que se opera, definitiva e exclusivamente, a salvação. Porém, esta afirmação necessita de precisão. Pode, hoje, afirmar-se que esta salvação acontece, exclusivamente, na Igreja Católica, na medida em que ministra o batismo? O Vaticano II e a teologia contemporânea obrigam a corrigir a resposta afirmativa simples. Na verdade, na Igreja Católica subsiste esta salvação, mas os valores do Reino que Jesus Cristo traz pode encontrar-se também para além das fronteiras da Igreja. Rahner, para se referir a esta possibilidade de salvação para além destas fronteiras falava dos cristãos anónimos: aqueles que, apesar de não serem cristãos, viviam honesta e fielmente de acordo com a sua consciência.

A alínea d) resulta da disputa com Lutero, que dizia que nem o batismo apagava o pecado existente no homem. Para a Igreja Católica tal posição poria em causa a eficácia da salvação operada por Jesus Cristo. Porém, havia sempre o problema de saber como entender, então, a tendência para o mal que continuava a manifestar-se. A esta tendência deu-se a designação de concupiscência, ficando à liberdade humana a possibilidade de não lhe ceder e permanecer sem pecado, após o batismo.

Por fim, a alínea e), que se refere ao pecado original originante, e que tem sido causa de disputas acesas, após Darwin, deve entender-se com uma simulação. Se não se entender que o pecado começa por decisão humana inicial, da qual todos participam, a partir daí, que hipóteses restam: ou atribuir o mal a Deus (o que é contraditório) ou atribuir à vontade e livre arbítrio de cada um, o que não se compagina com a experiência que todos fazemos da universalidade do pecado. O dogma do pecado original originante salvaguarda um equilíbrio entre estas duas posições.

Diante desta resposta, alguns perguntarão: mas, afinal, quem é Adão, perante esta explicação? É toda a humanidade, em dois momentos diferentes. Primeiro, a humanidade toda enquanto pensada por Deus. Devia ser perfeita, aberta à sua proposta. Mas, depois de se encontrar na história, a sua decisão foi a de poder fechar-se a essa proposta. Essa decisão, desde que a humanidade pôde abrir-se a Deus e não o fez, inaugurou uma nova e definitiva condição de que exigia ser salva.

Luís Silva