Poço de Jacob – 136 Nós chamávamos-lhe Birinaite. Nunca soube o seu nome. Lembro-me dela pois conheci-a na minha infância. “Birinaite” é o nome de uma mistura de bebidas alcoólicas, no Brasil. O meu pai vendia-a aos copos num minibar na sua loja, a nossa quitanda, ou mercearia, onde conseguia o sustento da família.
Lembro-me que Birinaite era uma mulher alta, mulata, quase negra. Magríssima, de pernas altas e saia rodada. Andava veloz. Voz fina, meio rouca. Cabelo apanhado atrás, de negra, meio esbranquiçado. Ficava horas na loja de meu pai, sobretudo fazendo companhia à minha mãe, que fazia o turno da tarde, enquanto o meu pai descansava, pois ele às 4h da manhã já andava no mercado, no Rio de Janeiro, para abastecer a mercearia para aquele dia, nos legumes e nas frutas, sobretudo.
Birinaite tinha filhos. Vivia num barraco de madeira, numa dita favela, das que o Rio sempre teve. O marido era o seu chulo. Birinaite era prostituta. A mais famosa do bairro. É interessante que nunca a minha mãe e o meu pai a afastaram dos filhos pequenos. Ela brincava connosco. Era alegre. Mas eu sempre a senti dorida. Vi várias vezes o seu rosto marcado de arranhões e feridas ou marcas negras. O meu pai nunca lhe cobrava a bebida que ela preferia e que lhe mereceu a alcunha. Bebia birinaite. Era a Birinaite.
Vi-a a conversar muito com a minha mãe, que lhe ficava muito grata pela companhia, pois deste modo sentia-se defendida das investidas de assédios e ladrões. Por isso, uma vez por outra, Birinaite levava o saco cheio para fazer o jantar no barraco.
Um dia, o trânsito da dupla via onde morávamos, parou. Um círculo de homens e mulheres gritava. Faziam uma roda enorme. Ocupavam a avenida larga. No centro pude ver a Birinaite. A nossa loja ficava num sítio alto e dominávamos a cena. O marido, de pau ou algo na mão, perseguia Birinaite no meio da roda. Batia na pobrezinha sem dó nem piedade. Ela defendia-se, ora agredindo ora dizendo palavrões. Nunca esqueci a cena. Fiquei chocado pela crueldade das pessoas que gozavam com a “tourada”. Birinaite era tão meiga. Tão doce. Tão amiga. Tínhamo-la como nossa. O ser prostituta passava-nos ao lado, pois éramos pequenos. Só sabíamos que dava e recebia carinho na nossa casa.
No meio da luta, Birinaite encontrou um buraco e fugiu… para a loja do meu pai. Ali, o meu pai não deixou entrar o marido agressor. A minha mãe acolheu-a. Penso que lhe limparam as feridas, aconchegaram-na, recebeu guarida. É a ultima lembrança que tenho dela. Vim depois para Portugal, e só há uns anos soube que morreu. Como? Não sei. Talvez na mesma desgraça que fora a sua vida e sem os amigos da loja para a aconchegar…
Em Portugal vivíamos num apartamento do rés-do-chão. O primeiro andar também foi prostíbulo por uns anos. Os clientes subiam e desciam e mais que uma vez bateram à nossa porta por engano. Nunca vi os meus pais preocupados. Eu já era adolescente e lembro-me que uma delas, linda, a Helena, frequentava a minha casa conversando com os meus pais. Era, também, muito querida. Um dia, o chulo chegou e Helena ficou quase desfeita de tanta pancada. Bateu à nossa porta. A minha mãe acolheu-a com carinho. Cuidou dela depois de ela chorar tudo aquilo a que tinha direito. As pessoas, sobretudo da Igreja, criticavam a existência da pouca vergonha ali… E não entendiam o apoio dado a elas… A minha família não entendia a crítica, pois afinal Jesus e as prostitutas sempre andaram juntos… Um dia, a sorte mudou para Helena. Um católico holandês caiu na tentação e foi lá. Conheceu Helena e gostou dela. Levou-a com ele. Ela casou-se pela Igreja, e, na última vez que soube dela, já era mãe de um pequeno holandês. Não sei nada dela, hoje, mas quero crer que, na vida dela, ganhou o amor. Talvez sim ou não na vida da Birinaite. Só sei de uma coisa. Na vida, seja quem for, prostitutas, ladrões ou o que seja… se não conseguem sair do buraco, muitas vezes é por não encontrarem o rosto misericordioso de Jesus no acolhimento do vizinho, da família…
A prostituição e o adultério, na Bíblia, são símbolo da nossa infidelidade à Aliança de Deus com o seu povo. São o que eu o sou quando não vivo a minha vida de compromisso batismal…
Os seres humanos precisam de ser amados sem medos nem preconceitos. Vi o rosto feliz de Helena, a prostituta do meu prédio, e a alegria de ter saído dessa vida quando ela veio contar à minha família e agradecer termos sido amigos quando todos a condenavam. Lembro a ternura da Birinaite, já falecida, esperando que tenha encontrado em Jesus o que os homens lhe negaram. E sei que, enquanto o nosso coração não se abrir ao irmão por ele ser pessoa e amado por Deus, sem rótulos ou catálogos, nunca o Amor de Cristo triunfará no meio de nós!
Vitor Espadilha
