Colaboração dos Leitores Chegámos a Março, tempo em que o Inverno se despede e a Primavera se anuncia; tempo em que a preparação para a Páscoa – a Quaresma – também poderá ser a despedida de tudo o que nos impede de sermos quem fomos chamados a ser; tempo em que, tal como a natureza renasce e se revela numa explosão de cor e formas, também em nós pode irromper um jacto com força de transformação, dando lugar a um novo ciclo, a uma nova vida que não teme a morte.
Nesta perspectiva como deveremos então encarar a morte? Sem dúvida que é uma certeza pessoal, intransmissível e condição da nossa humanidade. Serve para nos fazer pensar, não na morte, mas na vida, pois a vida só tem sentido porque existe a morte que tudo baliza. Já Espinosa dizia: “O homem livre pensa menos na morte do que em qualquer coisa e a sua sabedoria não é uma meditação da morte mas da vida”. A morte, para os crentes, é uma ponte, uma passagem para a vida eterna e, portanto, um regresso à casa do Pai.
O mês de Março, considerado o primeiro mês do ano na Roma Antiga, é o tempo em que o mundo vivo se reafirma porque não teve medo de morrer para depois poder, verdadeiramente, nascer. Nascer com a força e a beleza que transforma complemente todas as paisagens, erguendo-se a natureza das entranhas da terra e procurando o alto, a luz ao som da melodia das aves que na Primavera afinam seus cantos para cantarem e realizarem seus sonhos.
Que nós saibamos também ter a força da natureza para procurarmos a Luz que vem do Alto e que, desde sempre, espera que tenhamos os pés bem assentes na terra, os olhos postos no Céu e, com os nossos corações e mentes e o nosso trabalho possamos fazer descer um pouco desse Céu à Terra. Esta postura ajudar-nos-á a ser mais felizes, a desenvolver todas as nossas potencialidades, a vencer as nossas dificuldades e a construir pontes de ternura, amor e solidariedade com todos que a vida puser no nosso caminho. Assim, também todos os outros poderão elevar-se na sua dignidade de seres humanos e todos juntos enfrentaremos com mais alegria e sabedoria as dificuldades próprias da vida. A vida que não teme a morte…
Sara Meireles
