Perguntas e respostas sobre a Bíblia – 2 Em todas as culturas encontramos o uso dos números na sua identidade normal, com o seu uso normal, mas também há uma certa tendência para os usar de forma simbólica. Como exemplo entre nós, o 4 («procurei nos quatro cantos», isto é, em todo o lado) ou o 6 como metade de 12 para significar algo pequeno ou ridículo («meia dúzia de pessoas») ou o número mil como algo muito grande («milionário»)…
É preciso estar atento ao valor dos números, não só quando contamos com algo diferente, como é o caso do livro do Apocalipse, mas até em todo o Antigo Testamento e nos Evangelhos, pois muitas vezes apresentam-se com um valor mais teológico do que real. Vejamos, pois, alguns aspetos simbólicos dos números.
1 (um): Deus é Um.
2 (dois): significa o par perfeito; é o dobro e pode significar «de sobra».
3 (três): É usado para reforçar ou dar ênfase a uma expressão: Deus é Santíssimo, isto é, três vezes Santo. Usado para indicar algo completo, perfeito.
4 (quatro): número da totalidade: os quatro cantos da terra; quatro evangelhos; quatro seres vivos. Os quatro elementos do universo: terra, fogo, água e ar. Quadrangular, como símbolo de perfeição. Representa sinal de plenitude.
5 (cinco): cinco dedos da mão, usados como mnemónica. O primeiro bloco da Bíblia (a Lei) tem 5 livros, o Pentateuco.
6 (seis): número imperfeito, não chegou à perfeição, que é o número 7.
7 (sete): é a soma de 4+3. Por isso é o número perfeito, indica o máximo da perfeição, grande quantidade, totalidade; no Apocalipse: 7 Cartas; 7 Selos; 7 cabeças; o Cordeiro imolado possui 7 dons. O sábado é o sétimo dia; Deus fez a Criação em 7 dias; a festa de Pentecostes acontece 7 vezes 7 dias depois da Páscoa. Não se deve perdoar 7 vezes, mas 70 vezes 7, etc.
No Apocalipse usa-se muito a metade do 7, isto é, 3,5. Às vezes, tal como no livro de Daniel, diz-se: um tempo, dois tempos, meio tempo, isto é três anos e meio. Também pode ser 42 meses, 1.260 dias, ou seja, sempre a metade de 7 (anos). Indica a duração limitada de alguma coisa.
8 (oito): é 7+1, a plenitude reforçada.
10 (dez): Indica grande quantidade ou é simplesmente um número redondo. Uma vez mais, está presente o uso dos dez dedos das mãos, pelo que indica listas completas. É uma perfeição humana e, por isso limitada: um tempo limitado ou curta duração. Pode indicar também imperfeição: a besta só tem 10 chifres (parece que tem muita força mas, de facto, não tem).
12 (doze): é o resultado de 4 vezes 3, isto é um número bem completo. É o número da escolha: 12 tribos no Antigo Testamento; 12 Apóstolos no Novo Testamento; 12 legiões de anjos. Os anciãos no Apocalipse são 24, isto é: 12+12 (união do AT com o NT). Os que serão salvos serão 144.000, isto é 12x12x1000! Também é usado como número de totalidade.
40 (quarenta): número que indica um tempo necessário de preparação para algo novo que vai chegar: 40 dias e quarenta noites do dilúvio; 40 dias e 40 noites passa Moisés no Monte; 40 anos foi o tempo da peregrinação pelo deserto; Jesus jejuou 40 dias antes de começar o seu ministério; a Ascensão de Jesus dá-se 40 dias depois da Ressurreição. 40 chicotadas era o castigo dado para alguns crimes.
70 (setenta): jogo de números 10 x 7. Moisés comunica o espírito profético aos 70 anciãos. O exílio na Babilónia é apresentado como tendo durado 70 anos.
1000 (mil): uma quantidade tão grande que não se pode contar. Prazo de tempo completo e comprido. Reino de mil anos.
Devemos estar atentos também às combinações de números. Por exemplo, Abraão fez a Aliança com Deus quando tinha 99 anos; a Aliança completou o número 100. É o sábado, único dia da semana que tem um nome, que dá valor aos demais dias da semana, transformando os 6 dias (imperfeitos) em 7 dias (perfeito).
Interessante é saber que os israelitas escreviam os seus números com letras alfabéticas (não tinham vogais). Assim podia-se escrever um nome com um valor numérico. Por exemplo, Mateus divide a genealogia de Jesus em três grupos de 14 gerações. Ora, o número 14 é o resultado das somas das letras do nome de David (DWD): 4 + 6 + 4 = 14. Então Jesus é três vezes David, é o David por excelência.
Outro exemplo: S. João relata que os peixes apanhados na pesca milagrosa no Mar da Galileia eram todos grandes e em número de 153 (Jo 21,11), ou seja, a soma de 1+2+3+…. +17 = 153. Em primeiro lugar, 17 é a soma de duas totalidades: humana, 10 e divina, 7. A rede que não se rompe está cheia de algo constituído pelo humano e pelo divino: trata-se da Igreja. Os mestres judeus indicavam o número 153 como sendo a totalidade das espécies de peixes existentes no Mar Mediterrâneo. Daí o sentido da universalidade da Igreja.
J. Franclim Pacheco
Espaço da responsabilidade do ISCRA – Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro
