
Aveiro entristeceu-se com a decisão que em última instância é do Papa Francisco. O Porto alegra-se com o “pastor com cheiro a ovelha”.
O Papa nomeou D. António Francisco bispo do Porto. A nomeação foi tornada pública no dia 21 de fevereiro, pelas 11h (de Portugal) e gerou uma onda de choque e outra de contentamento. O choque deu-se na diocese de que D. António Francisco foi pastor, Aveiro, de 21 de setembro de 2006 até à sexta-feira passada. Sete anos e cinco meses. Agora, como dita o Direito Canónico, é administrador apostólico, porque não se pode ser bispo de duas dioceses. Mas continua a ser, como as pessoas o saúdam, “o nosso bispo”.
A decisão apanhou a todos de surpresa e levou a que alguns padres se manifestassem contra. Uns escreveram ao núncio apostólico (representante do Papa em Portugal), outros deixaram os seus lamentos e comentários nas redes sociais e nos órgãos de comunicação social nacionais e um grupo de padres deslocou-se mesmo a Lisboa, na véspera de nomeação oficial, numa última tentativa de a bloquear. António Marujo, jornalista que conhece profundamente a Igreja portuguesa, escreveu no blogue “Religionline”, na tarde da nomeação: “Um grupo de quatro padres da diocese de Aveiro tentou ontem, numa iniciativa de última hora, evitar a saída do atual bispo da diocese para o Porto. Sem sucesso: D. António Francisco foi nomeado esta manhã como sucessor de D. Manuel Clemente, nove meses depois da saída deste último para patriarca de Lisboa. (…) A reunião de ontem decorreu de forma cordata, tanto quanto foi possível apurar. Mas o núncio, o arcebispo italiano Rino Passigato, terá insistido com os quatro padres na irreversibilidade da decisão. O argumento invocado foi o da obediência ao Papa – embora a decisão seja, essencialmente, tomada pelo próprio representante diplomático da Santa Sé no país”.
Em Aveiro, diocese que até agora tinha sido o destino final dos seus bispos, sente-se que a obra de D. António Francisco ficou a meio, depois do entusiasmo da Missão Jubilar (MJ). Curiosamente, na mensagem que o Secretário de Estado enviou em nome do Papa para o encerramento da MJ, lia-se que Aveiro deveria “entrar decididamente num processo de discernimento, purificação e reforma, aplicando com generosidade e coragem as orientações da Exortação Apostólica «A alegria do Evangelho»”. E era o que pretendia D. António Francisco com a “renovação das estruturas”, assunto que muito tem ocupado os principais responsáveis de secretariados e serviços diocesanos.
No Porto, a nota geral é de contentamento. “Vamos recebê-lo como um sinal, uma dádiva, alguém que faz a ligação à Igreja Universal e que vem certamente cheio de boa vontade para capacitar e potencializar as capacidades desta grande diocese que lhe compete governar agora”, disse o diretor-adjunto do núcleo do Porto da Faculdade de Teologia, P.e Jorge Teixeira da Cunha, à Agência Ecclesia. O sacerdote salienta ainda que “a nomeação pecou pela demora”. “Tivemos aqui até algumas dúvidas e até alguma apreensão sobre qual seria o motivo da demora desta nomeação que era tão significativa e esperada no Porto”, disse, reportando-se ao facto de a diocese nortenha ter estado nove meses sem bispo residencial.
Nas páginas do “Jornal de Notícias”, Rui Osório congratula-se por o Porto receber um “pastor com cheiro a ovelha”, segundo a expressão do Papa Francisco, e comenta que “não admira que Aveiro fique descontente por ceder ao Porto o seu bispo”. O padre e jornalista acrescenta depois três “desafios” para o novo bispo: o envelhecimento do clero, a saúde financeira da diocese e a corresponsabilidade de todos na nova evangelização.
J.P.F.
