Fé e Vida
O Papa escreveu na exortação “A Alegria do Evangelho” que “há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa”. Percebemos o que quer dizer. Tem o mesmo sentido de “andar com cara de sexta-feira santa”, ficar na tristeza. Porém, na realidade, não creio que Quaresma seja sinónimo de tristeza. Pode ser sinónimo de dor, mas dor e tristeza nem sempre se equivalem.
Todos os anos a Quaresma promete novidade e alegria, aquelas que são consequência da conversão. Por isso, como muitos, vejo este tempo como o da esperança. O tempo que mais nos questiona, mas provoca, mais empenha. Diria que é um tempo grávido se a gravidez não tivesse já um tempo próprio, o do Advento. Claro que a Páscoa é que importa. Mas já sabemos que ela acontecerá. “Eu venci a morte”, diz Jesus. Mas vencer o caminho até ao reconhecimento e aceitação dessa vitória está nos nossos pés – e mãos. A Páscoa é dele. E Ele oferece-a. Mas a Quaresma é nossa. Só nós podemos fazê-la.
Na Quarta-feira de Cinzas de 1672, o Padre António Vieira fez um sermão na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma, que terminava com “quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora:
– Quanto tenho vivido?
– Como vivi?
– Quanto posso viver?
– Como é bem que viva?”
“Como é bem que viva?” – cá está uma boa pergunta para este tempo. A resposta é: “Arrepende-te e acredita no Evangelho”.
Haverá alguém que não precise de viver mais e melhor? Alçada Baptista contou uma história (ele dizia tê-la recebido de Raul Solnado, que, por sua vez, dizia tê-la ouvido de Millôr Fernandes) que dá a resposta:
“Um caixa de um branco estava na sua faina de pagar cheques e pôr carimbos e contava a uma cliente um passeio que dera à montanha.
– A certa altura não pude dominar o carro e caímos por um precipício de 300 metros!
– 300 metros! Como é que o senhor ficou com dia?
– Vida? Ó minha senhora, com franqueza, a senhora acha que isto é vida?” (Fim.)
Há mais vida além da minha vida.
J.P.F.
