
“Aveiro nunca mais sai do meu coração e da minha vida. Eu sou aveirense”, disse D. António Francisco no programa de rádio “Soltar a Corrente”, na rádio Terra Nova, no dia 28 de março, oito dias antes de partir para o Porto. A entrevista foi conduzida por Cathy Antunes e João Rocha, que semanalmente realizam o programa da responsabilidade do Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil, e por Jorge Pires Ferreira.
É a primeira vez que um bispo parte de Aveiro para outra diocese. Por que motivos gostaria de ser recordado em Aveiro?
É a primeira vez que um bispo parte de Aveiro para outra diocese mas não é a primeira vez que que um bispo chega de outra diocese a Aveiro e esta experiência também nos deve fazer lembrar que a nossa vida de servidores da Igreja, de pastores do povo de Deus, é uma vida de peregrinos. O nosso primeiro bispo, D. João Evangelista, chegou a Aveiro em 1938, quando já tinha estado em quatro dioceses. E houve outros bispos naturais de Aveiro que também fizeram este percurso, concretamente D. Júlio Tavares Rebimbas, que foi bispo do Porto e antes tinha sido bispo do Algarve, arcebispo de Mitilene (auxiliar de Lisboa) e primeiro bispo de Viana do Castelo. A forma de partir é sempre a mesma. É a disponibilidade para a missão e o cumprimento dos desafios que Deus nos lança.
Gostaria de ser lembrado pela certeza de que vivi e trabalhei, servi esta amada Igreja de Aveiro, com muita alegria. Senti-me um bispo feliz, acarinhado pelo povo e disponível para servir e trabalhar. Agora parto com a certeza de que me acompanham com amizade e com oração.
Quando chegou a Aveiro, traçou um plano de renovação de cinco anos e entramos depois na Missão Jubilar. A renovação foi a sua grande preocupação pastoral?
Longe de mim pensar que ia acabar desta forma e tão depressa. A minha primeira preocupação foi procurar situar-me diante do que pensei sempre ser o sonho de Deus para a Igreja de Aveiro, uma Igreja jovem, que tinha sido servida por quatro bispos, que teve etapas marcantes nestes 75 anos, que estava a viver um tempo de grande expectativa, dez anos depois do II Sínodo Diocesano, 40 anos depois do Concílio, na aurora de um novo milénio. Era necessário acolher este sonho de Deus que eu entendi como um desafio à renovação e à nova evangelização, com novos métodos, novo vigor, novo encanto e com numa linguagem serena que convidasse à esperança e que transformasse este mundo que é o nosso.
Nesta renovação podemos integrar a Missão Jubilar. No calendário, já acabou, na prática, ainda não. Que mudanças concretas trouxe a Missão à nossa diocese?
O grande elemento, a novidade da Missão Jubilar, foi não ser ideia do bispo, não ser a decisão de uma pessoa, mas envolver toda a Igreja. Nada termina. Cumpriu-se uma etapa e tudo se vai realizar, desenvolver e continuar. Não terminou a missão.
Qual o momento da Missão Jubilar que mais ficou no seu coração?
Foram muitos, passo a passo, Missão 11 a Missão 11, mobilizando cada vez mais pessoas. O segredo da Missão Jubilar foi ter sido preparada com tempo e aprofundadamente, de tal maneira que, pouco a pouco, as pessoas foram aderindo, não por imposição mas por convicção, não porque queriam ser participantes de um espetáculo, mas protagonistas para realizar tudo aquilo que íamos vivendo. Esta disponibilidade para se deixar envolver e transformar é que se torna semente e fermento de transformação do mundo. Mais do que as atividades que realizámos, importa referir e sublinhar as pessoas. E mais do que ver as pessoas no seu número, importa ver o espírito que se ia entranhando nas crianças, nos jovens, nas famílias, nos movimentos, nas comunidades. Houve também, é certo, originalidade e ousadia nas iniciativas. Sinto que as pessoas estão interessadas em continuar neste espírito de missão.
Não teme que a sua saída de Aveiro interrompa um trabalho tão importante?
Não interrompe. A minha ida para o Porto despertou em todos nós, e porventura com mais surpresa em mim, um carinho e uma simpatia, um amor deste povo a quem eu servi, que é de valor incalculável. Nada termina. Por outro lado, sentimo-nos todos amados por Deus e Deus não interrompe o seu amor por esta Igreja de Aveiro. Não é com a minha saída que diminui este amor de Deus e aquilo que eu quis fazer sentir ao assumir como inspiração da MJ o texto do profeta Isaías e de São Lucas, no cap. IV, em que Cristo assume que o Espírito o envia a anunciar a boa nova aos pobres e a viver um ano de graça. Sinto que este ano de graça teve aqui também uma marca muito importante em todos estes momentos que vivemos.
Sinto esta Igreja de Aveiro serena, acompanhando-me com tristeza e saudade, que eu levo também, mas com a confiança e serenidade de quem se prepara para acolher um novo bispo. Estará comigo e estará com o novo bispo como sempre esteve comigo. Sei que este é o espírito do Evangelho e esta é a forma de ser a Igreja de Jesus Cristo hoje.
A nomeação de um bispo para o Porto demorou muito tempo. Nove meses. Como acompanhou este processo? Imaginava que poderia ser o escolhido?
Acompanhei com serenidade e contribui com o que é normal na consulta que é feita a todos os bispos. Também eu indiquei um nome que Deus me inspirou. A serenidade era tanto maior quanto nunca me passou pela ideia que poderia ser eu o escolhido pelo Santo Padre. E por isso vivi com alguma apreensão por sentir que demorava muito tempo a nomeação. Preocupava-me e não gostaria que o mesmo acontecesse com a Igreja de Aveiro. Penso que estas decisões têm os seus trâmites, os seus itinerários, mas para bem da Igreja e das comunidades devem ser mais céleres.
Pode garantir que não vamos estar muito tempo sem bispo?
Garantir, não posso. Mas tenho sinais e a convicção firme de que Aveiro não vai estar muito tempo sem bispo.
Foi bispo auxiliar de Braga sendo titular de Meinedo (no concelho de Lousada), uma antiga diocese no território do Porto. Vê nisto algum sinal?
Não. Mas tenho refletido muito sobre isso. Quando fui nomeado bispo auxiliar de Braga não sabia qual era a sé titular que me era atribuída. Só quando recebi a bula é que o meu bispo [de Lamego] me disse: “Olha, uma curiosidade feliz, és bispo da diocese mais próxima da tua casa e da nossa, Meinedo”. Um dia, com um tom de bom humor, num encontro de Conferência Episcopal Portuguesa, em Fátima, fui ter com D. Armindo, ao tempo bispo do Porto, e disse-lhe que era o titular da sede da primeira igreja portucalense. “Eu sei e tenho muito gosto nisso”, respondeu-me. Mais tarde, abriu uma autoestrada que passava perto de Meidedo e numa das viagens de Braga para Lamego, visitei a bela igreja românica e ali rezei ajoelhado diante do altar-mor. E pedi pela igreja portucalense. É apenas uma coincidência.
No meu ministério andei sempre à volta de diocese do Porto. Sou natural da Lamego, que aconchega a parte este do Porto, estive na diocese de Braga, a norte, e em Aveiro, a sul. Agora vou ao encontro da grande Igreja do Porto.
O que antevê em termos de ação pastoral no Porto?
Desde criança, conheço a realidade geográfica, um pouco da realidade social. Conheço menos a realidade eclesial. É uma diocese com 477 paróquias, 27 vigararias [arciprestados], 493 sacerdotes, cerca de 700 religiosos e mais de dois milhões de habitantes. É uma realidade imensa, com uma zona urbana de grande densidade demográfica, desafios, exigências e problemas acrescidos, mas também com um manancial extraordinário de recursos humanos, com a generosidade das pessoas, com o vigor de uma Igreja que vem de há muitos séculos e que tem tido servidores tão generosos e dedicados. Sei que não posso replicar ou repetir iniciativas pastorais aqui vividas, mas a experiência pastoral desenvolvida em Aveiro vai ser um grande contributo para o meu trabalho no Porto.
Teve uma grande proximidade para com os aveirenses, mas nós somos uma diocese pequena. Vai ter a mesma proximidade numa diocese que, pelo número de habitantes, é seis ou sete vezes maior?
Eu vou com o mesmo jeito e mesmo modo. Vou estar com todas as pessoas porque cada pessoa é única, cada momento é único. Como aqui fiz. Certamente não será fácil cumprimentar todas as pessoas à saída das eucaristias, mas em cada eucaristia que celebrar vou fazê-lo. E vou procurar visitar, se Deus me der vida e saúde, todas as 477 paróquias. Cada pessoa sabe que tem lugar por inteiro no coração do seu bispo e o mínimo que posso fazer é saber o nome, conhecer o sorriso e olhar, porque aí se espelha a alma e se anuncia a fé.
Do Porto perguntaram-me se eu precisava de um telemóvel. Não preciso. Mantenho o mesmo número. Ninguém fica sem o lugar que ocupa no meu coração e na minha vida. Há muitos lugares na minha vida, dois milhões de lugares a serem ocupados pela Igreja do Porto.
A partir do momento nomeação, 21 de fevereiro, passou a ter de pensar na Diocese do Porto. Já está a mudar de casa?
Não. Estou a fazer agora o que sempre fiz. Só mudo no dia em que vou. Vou para o Porto no dia 5 de abril. Até lá estou em Aveiro, embora a rezar, a pensar e a escrever aquilo que é necessário para a minha primeira mensagem ao Porto.
Pedimos a D. António Francisco que dissesse o que lhe inspiram as seguintes palavras:
JOVENS
Levo da juventude uma escola de missão. Encontrei jovens extraordinários e com uma capacidade de trabalhar em Igreja que sempre me deslumbrou. Os jovens são a marca de Deus em Aveiro. E são a marca de Deus em mim. Obrigado, jovens.
SAUDADE
Fui-me habituando a lidar com a saudade como grande sentimento português. Gosto de ter saudade. E gosto que as pessoas tenham saudade. É sinal que têm grandes e nobres sentimentos.
Mãe
É a palavra essencial da minha vida, é o berço, a raiz, o vínculo sagrado que tive à minha mãe e é também a aprendizagem que fiz de que a Igreja é a minha mãe. A serenidade que senti depois da partida da minha mãe ajudou a descobrir que a Igreja é verdadeiramente a minha mãe.
JOÃO PAULO II
O Papa que me nomeou bispo, com quem estive várias vezes. Apetece-me dizer como diz o secretário dele: aprendi a viver com um santo.
BENTO XVI
Papa que me nomeou bispo de Aveiro e que me recebeu sempre com grande cordialidade. Tinha dele uma imagem de teólogo insigne mas distante. Num momento em que me recebeu, sugeriu que falássemos em francês porque sabia que eu tinha estudado em Paris. Sempre me tratou com afeto e carinho. Lembro e agradeço o gesto heroico e profético de, num momento preciso em que a consciência lhe impunha, ter dito: “Hoje renuncio”…
FRANCISCO
Não só a coincidência de sermos homónimos. A proximidade e bênção dos seus gestos simples e as palavras que todos compreendem anunciam uma nova primavera, uma frescura renovada na Igreja.
ESPERANÇA
É o tom da minha mensagem. Vejo que Igreja, mais do que lamentos, queixumes, denúncias e protestos, tem de ser farol de esperança para o mundo.
PADRES
São irmãos. Nos momentos fáceis e difíceis. Neste momento, os irmãos são mais necessários e mais preciosos. Olho os padres de Aveiro como os verdadeiros irmãos que sempre tive.
VOCAÇÂO
Foi a minha prioridade. A valorização da pastoral vocacional é um imperativo de missão e a certeza de que, se rezarmos e nos empenharmos, não faltarão vocações.
AVEIRO
Palavra que nunca mais sai do meu léxico, nem do meu calendário. E nunca mais sai do meu coração e da minha vida. Faz parte da minha vida. Eu sou aveirense.
EQUIPA DE FUTEBOL
Gostava muito que o Beira-Mar tivesse melhores resultados. A minha equipa preferida é o Futebol Clube do Porto. O desporto é escola de aprendizagem, de sabermos lidar uns com os outros, de tornar mais bela a vida.
JESUS CRISTO
É a razão de ser e de viver para qualquer cristão. O Evangelho de Jesus é tudo o que temos e somos.
