Três portugueses entre os génios da literatura

Génio

Harold Bloom
Temas e Debates
900 páginas

 

Há dias escrevia José Pacheco Pereira o que qualquer amante de leitura e de livros sente: “Enquanto houver livros para ler, sei que não terei um único momento aborrecido na vida. Só isto basta para lhes dever muito”. Todos devemos muito aos livros, mesmo quem não gosta de ler. Ainda não se inventou meio tão eficaz de transmitir ideias, conhecimento, sonho e diversão como o livro.
Diz-se que abril é o mês do livro. Dia 23 é dia internacional do livro porque neste dia, em 1616, morreu Miguel Cervantes (o de “D. Quixote”) e, passados dez dias, mas igualmente num 23 de abril (porque na Inglaterra protestante ainda não se tinha posto em prática a reforma gregoriana do calendário), morre Shakespeare. Mas abril é também o mês da liberdade, pelo menos para nós portugueses. O livro e a liberdade andam juntos? Parece que sim. Os livros precisam de liberdade e a liberdade não teme os livros, ao contrário dos regimes opressores que tendem sempre a proibir certos livros.
“Génio”, de Harold Bloom, é uma obra admirável, de novecentas páginas, sobre “os cem autores mais criativos da história da literatura”. E nós, portugueses, temos a sorte de ver nesta lista três autores lusos, Camões, Pessoa e Eça de Queirós, mais um que fala português, o brasileiro Machado de Assis. Poderia haver mais um, José Saramago (1922-2010), mas é o próprio Bloom, admirador do romancista português, que afirma que não quis incluir vivos. “Génio” foi originalmente publicado em 2002.
Na obra, paira a inspiração do transcendente. Ser genial talvez seja precisamente isso, fazer algo – neste caso, escrever – que transcende a época. Estão no livro autores como o Javista (corrente anónima que deu origem a diversas passagens bíblicas do Antigo Testamento), São Paulo e Maomé. Este não é um livro religioso, mas cabem nele todas as atitudes. “As minhas cem figuras, desde Shakespeare até ao recentemente falecido Ralph Ellison, representam talvez cem atitudes diferentes para com a espiritualidade, abrangendo todo o espetro desde São Paulo e Santo Agostinho até ao secularismo de Proust e de Calvino”, escreve. Curiosamente, o autor encontrou uma forma sublime de apresentar os seus génios. Organizou-os em vinte grupos de cinco e relacionou cada dois grupos com um dos dez lustros da tradição judaica da Kabala. Camões, por exemplo, surge a par de Homero (mas não Virgílio, que está com Agostinho e Dante, entre outros), James Joyce, Alejo Carpentier e Octavio Paz.
Um livro para gostar ainda mais de muitos outros livros. Uma viagem grandiosa e cativante pelos génios da literatura universal.