Sair da crise… Com ela às costas

Acácio F. Catarino Sociólogo, Consultor Social
Acácio F. Catarino
Sociólogo, Consultor Social

A crise atual insere-se num processo, longo e difícil, de profundas transformações na economia e na sociedade. Vários fatores estão na origem das transformações: a globalização, promotora de competitividade incontrolável; o endividamento externo e os défices orçamentais; a nossa dependência do investimento estrangeiro; a conflituosidade político-social; a propensão para o agravamento das desigualdades sociais, do desemprego, do empobrecimento…; tudo isto num contexto de limites ao crescimento económico, inerentes ao planeta em que vivemos.

A globalização torna mais difícil a penetração dos nossos produtos nos mercados mundiais, e mais fácil a aquisição de produtos estrangeiros de menor custo; a inovação científica e tecnológica, felizmente cada vez mais difundida no mundo, aumenta a competitividade, em qualidade e preço. O endividamento externo e os défices orçamentais limitam a nossa capacidade financeira. A dependência do investimento estrangeiro implica a disponibilidade de meios financeiros para a concessão de incentivos fiscais ou de outra natureza; e não podemos esquecer que, a par do «bom investimento estrangeiro», com saldo positivo para o país, também existe o «mau», que nos traz pesados custos em termos de exploração do trabalho humano, despedimentos, deslocalizações… Neste contexto, as lutas político-sociais permanentes dificultam a união de esforços e afetam gravemente a competitividade e a credibilidade externas do país. Tudo isto reforça a propensão para o agravamento das desigualdades sociais, a favor de quem dispõe de mais poder, mais capacidade competitiva, mais oportunidades, mais sagacidade oportunista, mais sorte…; consequentemente, o desemprego e o empobrecimento continuam invencíveis, sem fim à vista. Em suma: a crise atual pode passar; mas as transformações profundas e as crises cíclicas irão continuar, sem sabermos até quando.