Mulher de plena humanidade

 

Plenitude humana em Santa Teresa
Anabela Neves Rodrigues
Paulus
144 páginas
9,90 euros

 

Na celebração do quinto centenário do nascimento de Santa Teresa de Ávila, a Paulus Editora publica este novo ensaio sobre a vida e obra desta notável doutora da Igreja, com particular atenção à sua experiência espiritual. Teresa de Jesus, porventura a mais lida e admirada teóloga do catolicismo, não se limitou a ser uma mulher de ação, uma distinta reformadora da Igreja, foi também uma inquieta e exigente investigadora da interioridade contemplativa; por tudo isso foi elevada, em 1970, a Doutora da Igreja por Paulo VI.
No presente livro, procura-se dar a conhecer Santa Teresa como um exemplo interpelante e atual de uma “vida vivida em fé”, a que é estranha qualquer cisão artificial entre vida ativa e vida contemplativa. A obra da mística espanhola, fiel a uma certa ideia de “interioridade discreta”, deve menos a um exercício de especulação teórica, do que a desejo de relatar com fidelidade a experiência concreta de alguém que, como recomenda o evangelho, “fecha a porta e reza em segredo” (Mt 6,6) e “nada diz que não tenha experimentado”.
De resto, é da vivência pessoal de sofrimento e de oração que Santa Teresa retira alguns dos seus temas centrais: a imagem cambiante de um Deus de amor que substitui um “Deus do temor”; o êxtase como fase final do itinerário do caminho de salvação; a conceção doméstica da alma, comparada a uma morada de muitas divisões, cujos corredores se percorrem pela oração mental, pelo disciplinado e metódico esforço de autoconhecimento e amor a Deus, em direção ao centro – ao quarto do rei.
A “plenitude humana” de que nos fala a autora tem implícita uma certa ideia de santidade – não como uma série de dons extraordinários, mas antes como a capacidade para viver de forma extraordinária as coisas ordinárias. E não por acaso: Santa Teresa, que sempre aspirou à santidade – ainda menina tentou sair do castelo cercado em busca do martírio – , viveu plenamente de acordo com esses preceitos: no trabalho hercúleo de refundação da ordem carmelita, então esquecida da sua vocação original para a pobreza e a contemplação; na vigilância que impunha aos seus próprios hábitos e anseios de que o seu extenso epistolário é um fiel testemunho; na defesa da vida monástica como vida de exaltação e alegria (advertia nas suas cartas contra os “santos de expressão sisuda”) que deveria tomar o sofrimento e a dor como parte natural, e até desejável, do caminho para Deus (é bem conhecida a sua curiosa oração em que pede: “Senhor deixa-me sofrer ou então deixa-me morrer”).
Em suma, como demonstra a autora, com uma prosa enxuta, Santa Teresa é sobretudo um exemplo de plena humanidade, de alguém que vive a experiência mística, não como uma forma de alienação ou fuga de realidade, antes como convite irrecusável ao compromisso de construção do reino pela imitação de Cristo, e que, como escrevia Dante, aí encontra, na Sua vontade, a paz.
António Pereira