
A lição da misericórdia, que é mais do que compaixão, compreensão da miséria alheia, benevolência, está no íntimo da Bíblia, porque “Deus é paciente e misericordioso”, “eterna é a sua misericórdia”, como não se cansa o Antigo Testamento de repetir. No Novo, são inultrapassáveis os textos da misericórdia em ação, como nas parábolas do samaritano que ajuda o homem “meio morto” (Lc 10), das 99 ovelhas que se desviam da centésima, da mulher que perde dez por cento dos seus rendimentos, e do Pai do filho rebelde (Lc 15). A misericórdia abunda em todas as páginas dos evangelhos, porque “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai”, como escreve o Papa.
A literatura também tem lições de misericórdia inesquecíveis, dos grandes romances de Dostoievsky (em “Crime e Castigo”, diz Julia Kristeva, “o perdão aparece como a única saída, a terceira via entre o abatimento e o homicídio”) aos contos infantis. No final do conto da Cinderela, as duas irmãs reconhecem-na como a linda senhora que tinham visto no baile e atiram-se-lhe aos pés para lhe pedir perdão por todos os maus tratos que lhe tinham feito sofrer. “Cinderela ajudou-as a levantar e disse-lhes, beijando-as, que lhes perdoava de bom grado e que lhes pedia para gostarem sempre dela”. Não só era bela como usou de misericórdia.
Há uma página, porém, que se nos afigura como das mais sublimes, até pelo papel que joga no monumento que é “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, e por ter como protagonista um católico, um bispo.
Jean Valjean, órfão, com uma edução difícil, num dia de desespero rouba um pão e é condenado. Passa 19 anos na prisão, devido às tentativas de fuga, e considera que a sociedade é que cometeu um crime, não ele. Por isso, desconfia de qualquer pessoa. E, de facto, quando é libertado, não é acolhido em lado nenhum, até que bate à porta de um bispo. O bispo dá-lhe dormida, mas Jean Valjean, durante a noite, rouba-lhe os talheres de prata. Apanhado pela polícia, o ladrão é levado ao bispo. D. Bienvenu, assim se chama o bispo de Digne (e que se inspira num bispo real da diocese de Digne, no sudeste de França), ao contrário do que se esperava, diz aos polícias que lhe tinha dado os talheres e pergunta a Valjean por que não levara também os castiçais. Tal gesto, que não só o inocenta como recompensa um erro, faz Jean Valjean mudar o rumo da sua vida (e, como se lê no romance, o rumo da de muitos outros).
Não se tratando de literatura, há um testemunho que por estes dias andas nas redes sociais e que é mais uma concretização da misericórdia, no caso, pela mão de uma criança, no ambiente mais ignominioso do séc. XX, um campo de concentração nazi.
Francine Christophe tinha 8 anos quando foi levada, com a sua mãe, para o campo de concentração de Bergen-Belsen. Na sua malinha, porque era permitido aos prisioneiros levar duas ou três coisas, tinha um chocolate. “É para comeres quando estiveres mesmo triste”, disse-lhe a mãe. Acontece que, no campo de concentração, aproxima-se a hora de uma prisioneira, Helena, magríssima, dar à luz. A mãe diz a Francine:
– Lembras-te daquele bocado de chocolate?
– Sim, mamã.
– Como te sentes?
– Bem, mamã.
– Então, se permites, vou dar o chocolate à nossa amiga Helena, que vai dar à luz. Ela pode morrer. Mas se eu lhe der o chocolate, pode ser que não morra.
– Está bem, mamã.
Helena deu à luz uma bebé muito pequenina e comeu o chocolate. Não morreu. E a criança nunca chorou. Chorou apenas ao sexto mês de vida, quando o campo de concentração foi liberto.
Os anos passaram. Um dia a filha de Francine organizou uma conferência sobre o tema: “E se os sobreviventes dos campos de concentração tivessem tido apoio psicológico?” Apareceu muita gente, entre sobreviventes, historiadores, psicólogos… A certa altura, uma mulher toma a palavra e diz: “Moro em Marselha, sou psiquiatra. Antes de fazer a minha comunicação, tenho aqui algo para dar a Francine Christophe”. Remexe no bolso e tira um bocado de chocolate. Dá-o a Francine e diz: “Eu sou a bebé”.
