UMA OPORTUNIDADE PARA A MISERICÓRDIA

Papa Francisco: “Na festa da Imaculada Conceição, terei a alegria de abrir a Porta Santa. Será então uma Porta da Misericórdia, onde qualquer pessoa que entre poderá experimentar o amor de Deus que consola, perdoa e dá esperança”.
Papa Francisco: “Na festa da Imaculada Conceição, terei a alegria de abrir a Porta Santa. Será então uma Porta da Misericórdia, onde qualquer pessoa que entre poderá experimentar o amor de Deus que consola, perdoa e dá esperança”.

O Papa proclamou um Ano de Misericórdia, que oficialmente só começa no dia 8 de dezembro de 2015, quando o Francisco abrir a Porta do Ano Santo, e vai até 20 de novembro de 2016. Nas dioceses e nas paróquias, porém, o ano pastoral da Misericórdia já começou. Havemos de voltar várias vezes a este tema, para que seja mesmo um ano do amor de Deus. Porque precisamos sempre de contemplar e viver o mistério da misericórdia, como diz Francisco. Textos de Jorge Pires Ferreira.

 

“A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo”.

 

O Papa Francisco proclamou para 2015/16 o Ano da Misericórdia. É um ano para ser vivido por toda a Igreja, porque “a arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia”, como escreve, mas que, como outros, como sempre, corre o risco de não chegar aos cristãos, de nada acontecer de diferente. O que ficou do Ano Paulino (2008/09)? Do Ano Sacerdotal (2009/10)? Do Ano da Fé (2012/13)?
O Ano da Misericórdia abre-se e fecha-se no Vaticano, mas tem símbolos e momentos “obrigatórios” nas igrejas particulares, ou seja, as dioceses. Em cada uma, devem acontecer pelo menos duas ações: a abertura da Porta da Misericórdia no terceiro domingo do Advento (13 de dezembro de 2015), que será destino de peregrinação, pois esta é “sinal de que a própria misericórdia é uma meta a alcançar que exige empenho e sacrifício”; e a iniciativa “24 horas para o Senhor”, antes do IV Domingo da Quaresma, que será um momento de oração e uma oportunidade de reconciliação. Podem ainda acontecer “missões populares” para acolher os “missionários da Misericórdia” (confessores), que Francisco tenciona enviar.

 

A Igreja esqueceu-se
da misericórdia?
Na ideia do Papa está, como explica na bula de proclamação deste ano, o desejo de recentrar a Igreja na prática da misericórdia. A Igreja – os cristãos – deve ser misericordiosa à imagem e semelhança de Jesus, que é “o rosto da misericórdia do Pai”. “Toda a sua ação pastoral deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo”, escreve Francisco, que reconhece, contudo, que “talvez, demasiado tempo, nos tenhamos esquecido de apontar e viver o caminho da misericórdia”.
A Igreja esqueceu-se da misericórdia? O teólogo espanhol José Antonio Pagola afirma que “na Igreja nunca a compaixão foi esquecida”, mas adianta que “não há dúvida de que [a Igreja] não conseguiu introduzir no mundo o princípio da misericórdia como a grande herança de Jesus” (in “Jesus e o dinheiro”, Paulus, pág. 66). Mas porquê?

 

Culpa ou sofrimento?
“Em boa parte – continua Pagola, agora citando o teólogo alemão J.B. Metz – porque «a doutrina cristã da redenção dramatizou excessivamente a questão da culpa e relativizou a questão do sofrimento… De uma religião sensível ao sofrimento passou mais a ser uma religião sensível ao pecado. O seu interesse principal deixode ser o sofrimento da criatura e concentrou-se na culpa»”.

 

Aprender com Jesus
Talvez tenhamos então de reaprender, ou simplesmente aprender, a misericórdia com Jesus Cristo. Pagola explica-nos como podemos fazer: “No cristianismo, temos de recuperar um dado de suma importância. O primeiro olhar de Jesus não se dirige ao pecado do ser humano, mas ao sofrimento. O contraste com o profeta São João Batista é esclarecedor. Toda a atividade do Batista gira à volta do pecado; denuncia os pecados do povo, chama os pecadores à penitência e oferece um batismo de conversão e de perdão aos que acorrem ao Jordão. O Batista não se aproxima dos enfermos, nem toca no pé dos leprosos, nem abraça as crianças da rua, nem se senta a comer com os pecadores excluídos, nem com gente indesejável. O Batista não se aproxima do sofrimento das pessoas, nem se dedica a fazer a vida mais humana. Não sai da sua missão estritamente religiosa. Para Jesus, pelo contrário, a primeira preocupação foi o sofrimento das pessoas enfermas e subalimentadas da Galileia, a defesa dos aldeãos explorados pelos poderosos donos das terras ou o acolhimento dos pecadores e prostitutas, excluídos da religião. Para Jesus, o grande pecado contra o projeto de Deus consiste sobretudo em resistirmos a tomar parte do sofrimento dos outros, fechando-nos no nosso próprio bem-estar. A partir da Sua experiência radical da compaixão e misericórdia de Deus, Jesus introduziu na história um princípio decisivo de ação: «Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso» (Lc 6,36). É a compaixão ativa e solidária que nos há de conduzir para esse mundo mais digno e feliz querido por Deus para todos. Por isso, a misericórdia não é uma virtude a mais, mas sim o caminho único para reagir perante o clamor dos que sofrem e para construir um mundo mais humano. Esta é a herança de Jesus para toda a humanidade” (pág. 35).
A misericórdia concretiza-se principalmente em três verbos: consolar, perdoar, dar. Retomemos as palavras de Francisco, que pede que a misericórdia seja reproposta com novo entusiasmo e pastoral renovada: “Precisamos sempre de contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o acto último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado”.