Saudades daquele “que me diz ao ouvido que gosta de mim”

SAUDADES DE DEUS
Carreira das Neves
Editorial Presença
173 páginas
12,90 euros

 

 

Carreira das Neves, franciscano, conhecido teólogo da nossa praça, cultor de um estilo dialogante e conciliatório, apresenta-nos “Saudades de Deus”, o seu mais recente contributo para a catequização da pátria.
Comecemos pelo título, que convenientemente encerra a premissa do livro. Diz Carreira das Neves que ao falarmos de saudade, “exprimimos um certo tipo de solidão: saudade do amado que está longe ou já faleceu”. Não sem alguns desvios, concretiza um pouco depois: a saudade de Deus é uma saudade da “certeza de Deus”. Isto é, da segurança que era possível ter na fiabilidade dos enunciados teológicos mais variados, garantida pela “tutela da Igreja e da tradição”, até ao dia – com ares de quarta-feira – em que “o advento do iluminismo e da ciência” lhe pôs um fim. Apesar da caricatura histórica que o autor não evita, a questão é mais do que pertinente e o que vai sugerindo como resposta neste livro merece leitura atenta.
Partindo do debate inevitável, da relação de coexistência entre ciência e fé, avança a dignidade humana – conceito jurídico que é uma pura originalidade cristã –como paradigma de verdade,uma vez assumida livremente. A este propósito, lembra as palavras de António Lobo Antunes que numa entrevista, naquele jeito de quem finge desconversar muito seu, atirou: «Sabe como me aproximei de Deus? Foi através dos físicos. Dos grandes físicos, matemáticos, etc. Eram homens profundamente crentes. Simplesmente, o Einstein dizia: “É completamente estúpido, porque temos a ideia de um deus vertebrado e gasoso” – o que eu acho uma definição espantosa do que deus não é». Numa outra entrevista, à pergunta de quem é o Deus em quem acredita, respondeu: “Deus é aquele que me diz ao ouvido que gosta de mim». E é deste Deus – “o Deus vivo”, que é escândalo de amor, que opõe ao Deus feito à nossa imagem e semelhança – que Carreira das Neves nos fala.
Para poder falar de Deus com propriedade e recorrendo aos nomes próprios, defende o autor, é importante fazer uma genealogia do Deus (evidentemente, a nossa ideia de Deus). Pela exegese de alguns textos do antigo testamento, primeiro, e das cartas apostólicas, depois, vamos progredindo do teomorfismo dos patriarcas e reis para o único antropomorfismo sem blasfémia: Cristo. Um passo que não pode ser dado sem consequências e que conhece a sua ruptura prática mais radical naquilo a que chama o sintagma do Reino de Deus – o símbolo de um mundo novo, escandaloso, em que o mandamento é o amor, até ao inimigo. Uma das virtudes do livro está, contudo, na forma como Carreira das Neves não se fica pela interpretação dos textos bíblicos e por uma teologia que não se envolve no mundo. De destacar o capítulo, didático e certeiro, sobre a patrística, com que se lançam (e depois desenvolvem) sobretudo duas ideias fortes: o cristão não se faz por geração mas por regeneração e a fé que não seja objeto de reflexão não é fé (“de resto, crer não é outra coisa senão pensar assentindo”, diz Santo Agostinho); estas duas ideias não se limitam a sintetizar um debate complexo e rico, resumem mesmo muito do que constituiu desde cedo o cristianismo enquanto prática e comunidade. Com esta chave, assim o prova “Saudade de Deus”, pode-se ler melhor o sentido interno do corpo de tradições católicas, a devoção mariana, a concepção maternal da Igreja, a mensagem de Francisco e até, a contrario, o sentido das “novas espiritualidades”.
António Ramos Pereira