Padre Elísio Assunção, Presidente da AIC, sobre a imprensa em papel: “Nos últimos dez anos desapareceram 80 títulos de inspiração cristã”

Padre Elísio Assunção
Padre Elísio Assunção

O P.e Elísio Assunção é, desde fevereiro de 2015, presidente da Associação de Imprensa de Inspiração Cristã (AIC), de que o Correio do Vouga faz parte. Fundada em 1992, a AIC tem 270 sócios, entre jornais e revistas ligados à Igreja Católica. Por correio eletrónico, colocamos ao P.e Elísio, que integra o Instituto dos Missionários da Consolata e é diretor da revista “Fátima Missionária”, questões sobre o presente e o futuro de jornais como o nosso.

 

CORREIO DO VOUGA – Com que dificuldades se depara neste momento a imprensa regional de inspiração cristã? E há alguma melhoria em algum aspeto?

ELÍSIO ASSUNÇÃO – As dificuldades da imprensa de inspiração cristã não são de hoje nem são exclusivas. Enumero algumas entre as principais. A primeira é, sem dúvida, a falta de leitores. A nossa população tem um enorme défice de hábitos de leitura que se reflete no interesse em fazer suas as nossas publicações, com o consequente número reduzido de assinantes e leitores. Aponto também a dificuldade de modernização da nossa imprensa devido a vários fatores. As novas tecnologias trouxeram vantagens, mas a falta de preparação e a falta de meios não facilitaram o acesso às mesmas, com a consequente falta de evolução e de competitividade. Assinalo ainda a «concorrência» movida pela Internet à imprensa escrita. Também aqui a resposta a este desafio nem sempre foi pronta e de qualidade. Finalmente não posso deixar de assinalar a redução significativa dos apoios às publicações, por parte do Estado e de outras instituições.

 

Como vê o futuro das edições em papel?
Sou daqueles que pensam que as edições em papel têm futuro. O suporte digital tem a sua função, tem as suas vantagens, mas não poderá nunca substituir o papel. Este tem credenciais bem afirmadas que o digital não consegue abranger. Porém é necessário que as edições em papel garantam e valorizem as suas caraterísticas próprias com qualidade e profissionalismo. É agradável, ao fim de semana, ler calmamente uma publicação que seja próxima, com interesse e bem conseguida.

 

A imprensa de inspiração cristã está a preparar-se bem para o digital? Há boas experiências?
A imprensa de inspiração cristã, em geral, agarrou a transição para o digital com algum atraso e até desconfiança, perdendo algumas boas oportunidades. Diria que estamos a tentar recuperar o tempo perdido. Felizmente há experiências com caminho feito em vários âmbitos, não obstante as dificuldades e o peso que esse caminho acarreta. São precisos recursos humanos e materiais que geralmente escasseiam. É necessária determinação e bom aproveitamento dos meios sempre escassos.

 

Quantos títulos em papel desapareceram nos últimos anos? E quantos surgiram?
Devido a várias dificuldades, algumas das quais enumerei, nos últimos dez anos, infelizmente, desapareceram cerca de 80 títulos da Associação. Todos tinham o seu peso e a sua história, mas alguns possuíam um passado muito rico. Em contrapartida surgiu apenas um ou outro título. O maior desenvolvimento é, sem dúvida, a nível digital. Exige muita coragem dar-se hoje à aventura de lançar uma nova publicação em papel. Talvez mais coragem do que manter as publicações que temos. Felizmente, hoje, tal como ontem, não falta quem aposte nestes meios, consciente da sua importância e da sua missão. É de louvar!