
“Sacerdote dominicano, clérigo secular, humanista, filólogo, nautógrafo, cartógrafo, historiador, professor, patriota, diplomata, viajante, marinheiro, piloto, soldado, perseguido e sobretudo grande aventureiro, Fernão de Oliveira viveu uma existência plena de episódios dispares”, escreve monsenhor João Gonçalves Gaspar no livro “Fernão de Oliveira, humanista notável”. A obra sobre o aveirense do século XVI vai ser apresentada no dia 29 de junho, pelas 16h30, no auditório da Livraria da Universidade de Aveiro.

– humanista notável
João Gonçalves Gaspar
Tempo Novo Editora
Págs. 164; 10,00 €
Correio do Vouga: – Qual o motivo por que redigiu este livro sobre o padre Fernão de Oliveira?
João Gaspar – Em primeiro lugar, a razão de eu me debruçar acerca da biografia do padre Fernão de Oliveira – ou Fernando Oliveira – foi a de o considerar como uma personagem tida como aveirense. Nos meus momentos vagos, não apenas tenho recordado factos da história da nossa terra, mas também pessoas que a tiveram por berço ou como sua. O meu único desejo tem sido pôr na mão dos leitores algo da memória multissecular de Aveiro.
Em que ponto se encontra a questão sobre as origens aveirenses de Fernão de Oliveira?
Para mim é um ponto assente, sem qualquer dúvida, que Fernão de Oliveira foi gerado em Aveiro e considerou-se aveirense, mas nasceu na freguesia do Couto do Mosteiro, do atual concelho de Santa Comba Dão. São palavras dele, que lemos na introdução do livro inédito “Ars Nautica”, cujo manuscrito se encontra arquivado na Universidade de Leidn – Holanda: – «Aveiro é a terra onde me geraram os pais; […] mas o recém-nascido soltou os primeiros vagidos na Gestosa (Couto do Mosteiro). A igreja matriz de [Stª] Columba deu-lhe o batismo da fé.»
As respostas, que em 1547, em dois processos diferentes, ele proferiu à barra do Tribunal da Inquisição a dizer, num deles, que o seu nascimento foi em Aveiro e, no outro, que o seu batismo foi administrado no Couto do Mosteiro, se os autos forem verídicos, podem manifestar certo nervosismo… a não ser que para um “humanista” o lugar principal do início de uma vida fosse o da geração. Efetivamente, nesse tempo era impossível que o batismo de uma criança indefesa se administrasse numa terra tão distante, pois não havia facilidade na deslocação e tal sacramento tinha de ser no prazo de oito dias.
Que Fernão de Oliveira mantinha uma atenção especial e saudosa por Aveiro, pátria dos seus avoengos paternos e maternos, prova-o facto de ele se referir por duas vezes a esta vila de então: – na sua gramática, onde explica, com os conhecimentos da época, a etimologia do topónimo de Aveiro, e na sua história de Portugal, onde teve o cuidado de aludir à antiguidade de Aveiro.
Que aspeto gostou especialmente de investigar sobre Fernão de Oliveira?
Como é fácil de concluir pelo que já disse, um assunto que particularmente me interessou foi o da terra da naturalidade de Fernão de Oliveira – interesse que já em mim se despertara à volta de 1975, numa cavaqueira de amigos, e que posteriormente se me firmou pelo que fui lendo em estudos de diversos autores e investigadores. Para isso, também tive de solicitar fotocópias de algumas páginas da “Ars Nautica” à referida Universidade, as quais me foram particularmente úteis.
A outra alínea que me cativou foi o percurso multifacetado dos seus anos: – a sua formação no convento dos dominicanos, em Évora; a sua vida de clérigo; as suas aventuras em armadas bélico-marítimas; o seu cuidado em dar à estampa a primeira gramática do nosso idioma; o seu desejo de proporcionar o conhecimento dos segredos da construção naval; a sua experiência em armadas marítimas, que passou a papel; e o interesse em ordenar a história de Portugal. Por tudo isto, Fernão de Oliveira revelou-se como um humanista notável; sem qualquer sombra de dúvida, considero-o como fazendo parte do catálogo dos ilustres humanistas portugueses do século XVI.
Há algo no seu livro que considere novo?
Neste momento, não considero nada de novo no meu livro, em que repeti, aperfeiçoei e ampliei o texto que escrevi para a antologia “Fernando Oliveira – Um humanista genial – No V centenário do seu nascimento”, coordenada e publicada em 2009 pelo doutor Carlos Morais, professor na nossa Universidade de Aveiro. Ao longo destas 622 páginas, encontramos a multiforme colaboração de vinte e oito autores, que versaram diversas facetas do “aveirense, sacerdote e humanista”.
Ao longo da minha vida, o que eu sempre desejei foi que os aveirenses soubessem algo dos nossos maiores, que se foram evidenciando em quaisquer alíneas, tornando a sua e minha terra cada vez mais conhecida… para ser mais amada.
