Conta D. Manuel de Almeida Trindade: Como Mário Soares levou o governo provisório a cumprimentar o cardeal-patriarca

Mário Soares, Palma Carlos e D. António Ribeiro.
A foto foi retirada do livro “Interações do Estado e da Igreja” (Ed. Imprensa de Ciências Sociais)

No dia 16 de maio [de 1974], tomou posse o governo provisório, presidido pelo Doutor Adelino Palma Carlos. A pasta dos Negócios Estrangeiros coube ao Dr. Mário Soares. Ouvi-lhe um dia, em Aveiro, contar o seguinte episódio: no fim da reunião dos ministros ele anunciou a resolução de, no dia seguinte, ir apresentar cumprimentos ao Núncio Apostólico e ao Cardeal Patriarca de Lisboa. Palma Carlos tomou a palavra e disse:
– O senhor não vai sozinho; eu vou consigo.
Resposta de Mário Soares:
– Não, nesse caso, não posso esquecer que o senhor é que é o primeiro-ministro e não eu. Iremos os dois. Sou eu que o acompanho e não o inverso.
Mário Soares justifica a sua resolução em virtude do papel desempenhado pela Igreja Católica na história de Portugal. Esquecê-lo seria expressão de sectarismo.
Gostei de ouvir este pormenor da primeira reunião do primeiro governo provisório, como gostei de ouvir, mais do que uma vez, o modo como se referia a seu pai, Dr. João Lopes Soares: que era um republicano e também um crente sincero. Pude certificar-me, junto de testemunhas idóneas, que era justo o juízo que Mário Soares fazia do pai, e até tive oportunidade, sabendo que este havia feito o curso integral de Teologia no Seminário de Coimbra, de lhe enviar fotocópia das atas de exames e dos nomes dos respetivos examinadores. Um homem que, no princípio da revolução, quando não se sabia ainda o rumo que ela ia levar, tivera a coragem de prestar um ato de homenagem à Igreja, bem merecia – embora já passados alguns anos depois desse mês de maio de 1974 – que eu tivesse para com ele esta atenção.

In “Memórias de um Bispo”,
de D. Manuel de Almeida Trindade, pág. 322