Família, tema impróprio para reflectir no Verão?

Assim me foi insinuado, ao anunciar o tema dos encontros de este ano, nas praias e nas termas. Não faltou quem pensasse de modo contrário, e tenha disposto a sua vida para participar no serão que se propôs sobre o tema.

No serão habitual que faço já nas minhas próprias férias, como a testar o assunto, e nos realizados a seguir durante o mês de Agosto, ao todo oito, participaram à volta de quatrocentas pessoas. Pouco? Muito? O número é sempre relativo se se comparar com o interesse manifestado e os problemas levantados pelos participantes, muitos deles oriundos de várias zonas do País e que já não dispensam esta actividade de férias. O tema foi, pois, a família, apesar do verão…

A família, fragilizada por muitas causas que, de dentro e de fora, a atingem na sua vida diária, volta a sentir-se a instituição com raízes mais profundas nas pessoas, e com capacidades de espaço e ambiente educativo, que nenhuma outra instituição se lhe compara.

Parece, porém, cada vez mais claro que, dadas as mudanças socioculturais, se os membros da família não se sabem colocar e agir, de modo positivo e criativo, nestas mudanças, que exigem deles novo estilo de relação e revisão contínua das tarefas familiares, a fragilidade aumenta, os conflitos sucedem-se e uma desagregação inevitável acelera cada dia mais.

Não se pode mais pensar a família, como se houvesse um único padrão, o tradicional de cariz religioso. O familiar não é mais património de ninguém, mas uma vivência social diversificada. Todas as expressões de família comportam aspectos fortes e débeis. Não se divorciam apenas os que casam civilmente, mas também, e em grande número, os que casam na igreja. Há problemas de relação, de educação, de transmissão de valores, em todas as famílias. De igual modo, há, em todas, expressões de amor, de disponibilidade, de acolhimento da vida e de respeito pelas pessoas.

Tudo isto nos vai mostrando que os valores fundamentais, tal como os deveres familiares normais, se podem encontrar em todo o lado.

Emerge, no entanto, uma exigência dupla: o dever de defesa e de promoção da família, por parte de todas as entidades e ideologias políticas, sem excepção; a atenção a alguns valores, hoje mais urgentes, a transmitir no seio da família, em parceria e com o apoio das outras instâncias educativas. E quais são estes valores? Dada a debilidade da família e da sociedade, educar para a libertação, para a justiça e para a solidariedade, é a exigência educativa mais evidente. Se as pessoas não forem progressivamente mais livres, justas e solidárias, toda a relação pessoal é inconsistente e os conflitos normais, familiares e sociais, multiplicam-se sem solução à vista. Em cada conflito nota-se a falha destes valores, indispensáveis para que a família, qualquer família, bem como a sociedade, tenham futuro.