Não venho tecer elogios ao Padre João Mónica. Seria uma moldura a empobrecer a beleza de um rico retrato. Ele nunca quis nem apreciou elogios quando ainda lutava na liça difícil da vida. Melhor os dispensa agora, no frente a frente com o Pai e Senhor de todos os bens.
Todos somos diferentes nos talentos recebidos. Todos somos iguais no dever de os fazer render. Todos daremos contas do recebido e do como foi investido.
Palavras, ainda escritas sob a emoção da muita estima e da gratidão, são, também, a verdade sentida e o testemunho conhecido dos talentos naturais e espirituais do Padre João, realçados pela gratidão à sua Fonte e pelo seu esforço de os tornar úteis a todos.
Traços de um perfil a que muitos outros se poderão juntar. Padre João, um coração grande, servido por uma inteligência brilhante; um homem de fé, valorizada pela capacidade inesgotável de a traduzir em obras de bem fazer; um padre a tempo inteiro, amigo, sem reservas de todos os padres, que sabia descobrir motivos novos de alegria e dedicação para o poder ser sempre mais padre; um amigo de verdade em quem se podia confiar: um apaixonado das grandes causas, que as encontrava sempre na missão que lhe fora confiada; um homem da Igreja, que a servia e a ponha ao serviço de todos, iluminado pela fé que lhe ia revelando caminhos novos, sem olhar à dureza do terreno, nem à insídia dos que se incomodavam com seus trajectos; um líder que sabia confiar e dar espaço aos outros; um esquecido de si para que os que dele dependiam tivessem garantido o trabalho e o pão; um portador de uma alegria contagiante que lhe dava sentido à vida; uma sensibilidade extraordinária para acolher as fraquezas dos que erravam e as saber traduzir, discretamente, em estímulos de amizade e confiança…
Porque a vida e a missão o exigiam, a partir de 1981, as nossas vidas rodaram juntas.. Seminário, paróquias, Colégio… Muitos passos andados em campos de diversificada missão, mas sempre a mesma missão. Folha em branco, então assinada como se fosse uma loucura, porque os tempos não eram fáceis para caminhos difíceis… A força foi de rumar no mesmo sentido, na confiança total, nos pactos selados. Enchia o Padre João a paixão pela educação, que era atenção e promoção daqueles que Lisboa não conhecia, nem via… O sonho do Colégio! Depressa, de oitenta a mais de mil alunos. O entusiasmo crescia, os amigos aumentavam, as iniciativas não paravam… Lutas e dificuldades inevitáveis, mãos na cabeça por aflições concretas, obras que cresciam porque a obra o exigia… Ou tínhamos uma escola de qualidade ou não valia a pena! E a luta do Padre João pela educação, a travou no país na associação das escolas católicas.
As tão conhecidas distracções do Padre João, penso eu, eram fruto da sua contínua atenção e entrega ao essencial. Um esquecido de si, sempre lembrado do que fazia falta.
Lutou até ao fim, com coragem e serenidade. Um testemunho eloquente, na saúde e na doença. De tudo falava com normalidade. Na última etapa, poucos dias antes do grande encontro, dizia-me, com palavras já difíceis de pronunciar: “Vou mudar de hotel!” Sabíamos ambos ao que se referia. Mão na mão, rezamos juntos. Ou milagre, ou partida muito em breve. Ele, porém, dizia não querer o milagre. O seu caminho era o de todos. Caminho que abre caminho.
Bispos, colegas, familiares, paroquianos, comunidade do Colégio, amigos de verdade, não podemos deixar que tão brilhante luz, que iluminou os caminhos da normalidade humana, cristã e sacerdotal, alguma vez se apague. A morte traz sempre mais vida.
António Marcelino,
bispo emérito
