O fascínio de um misterioso anel preto

Na passada semana, tive o privilégio de participar na 4ª Semana Social Maranhense.

Curioso, uma vez que nunca tinha tido oportunidade de participar numa Semana Social em Portugal, lá me dispus a enfrentar 13 horas de autocarro e partir de Chapadinha rumo à cidade de Imperatriz, na ponta oposta do estado do Maranhão (Brasil). Foram mais de 700km percorridos no “chão” do Nordeste Brasileiro, ao encontro das reflexões e partilhas promovidas pelo Regional Nordeste V da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), que agrupa as dioceses do Maranhão.

A Semana Social Maranhense teve como tema central “Articulação das forças sociais, participando na construção do Maranhão que queremos” e o seu objectivo preferencial era fazer uma reflexão prévia para a Semana Social Brasileira, que irá decorrer em Brasília, no mês de Outubro próximo.

Definida no Plano quadrienal de Pastoral da Igreja do Maranhão, a Semana Social era, para mim, uma prioridade, uma vez que, neste trabalho inicial de estruturação da Comissão Diocesana de Justiça e Paz, seria o momento mais indicado para retomar o contacto com o trabalho de compromisso político-social da Igreja maranhense, no seu todo, sempre atenta às necessidades das causas sociais.

Desde logo, algo me marcou profundamente: o carácter extremamente objectivo das reflexões. Não se tratava de reflectir de uma forma dispersa sobre a realidade. Pelo contrário, o debate resultou sempre em propostas e respectivas sugestões de operacionalização.

No eixo “articulação das forças sociais – construção de uma nova sociedade”, todos os segmentos populares apresentaram os seus testemunhos e os seus desafios.

A CPT – Comissão Pastoral da Terra (organismo da Igreja que luta pela Reforma Agrária e Justiça no Campo) apresentou alguns dados sobre os conflitos agrários, devidamente ilustrados por testemunhos de camponeneses sem-terra, que levaram os participantes à indignação e a subscreverem uma moção de repúdio à prepotência dos fazendeiros e madeireiros, de muitas autoridades políticas e militares, e a declararem uma resistência firme face à nova forma de latifúndio que dá pelo nome de agronegócio.

Os povos indígenas do Maranhão apresentaram, também, as suas inquietações. Tomou-se como exemplo a reserva indígena do Bacurizinho, onde vivem algumas famílias do povo Guajajara. Desde o início do ano, já foi morto o cacique (nome para líder civil indígena) da tribo, a aldeia já foi invadida por homens armados que queimaram casas, atiraram sobre alguns indígenas e estupraram uma jovem de 16 anos. Até agora, nenhuma providência foi tomada pelas autoridades.

Prontamente foi lançado um abaixo-assinado a favor do povo Guajajara, devidamente iniciado com um ritual de tatuagem para quem quis seguir os costumes ameríndios.

Muito mais poderia ser relatado em relação ao que se passou na 4ª Semana Social Maranhense.

Deixo apenas uma última referência a um misterioso anel preto usado nas mãos da grande maioria dos participantes. Trata-se de um Anel de Tucum – coco existente no Norte-Nordeste do Brasil e que representa, para quem o usa conscientemente, o compromisso a favor da luta pelas causas populares: dos índios, dos sem-terra, dos negros que são discriminados, das mulheres que são violentadas e das crianças que são exploradas…

A Palmeira de Tucum é alta, cheia de espinhos “bravos”, mas isso não impede que o coco seja aproveitado para fazer o tão misterioso anel, pois também são árduas e difíceis as causas que ele representa e, nem por isso, os que o usam deixam de se sentir fascinados, motivados e animados pelo Cristo que está no âmago de todas essas lutas.